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EditorialOpinião

E depois da rentrée?

Paula Bravo
Última Atualização: 2026/Set/Sex
Paula Bravo
42 minutos atrás
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Chega o mês de setembro e esta palavra de origem francesa que significa reabertura, nova aparição após uma ausência, ou reinicio de atividades, começa a tornar-se familiar, de repetidamente ouvida.

Cria-se a impressão, talvez, que estamos na iminência de um admirável mundo novo.

De uma forma absurda, nada ancorada na realidade.

Neste início de coisas novas, passe a redundância, dei por mim a pensar no anúncio de que 7.500 utentes do concelho de Silves passarão a ter médico de família. O que se deverá à decisão do Governo de entregar cerca de três milhões de euros a uma empresa privada para gerir os cuidados de saúde no nosso concelho. Sempre desconfiada das benesses, pus-me a pensar que, muito provavelmente, se o Governo disponibilizasse essa verba ao Serviço Nacional de Saúde, também este teria condições para contratar mais médicos e outros profissionais para colmatar a gritante ausência que se faz sentir em todas as unidades de saúde do concelho.

Curiosa, fui pesquisar as avaliações da única unidade de saúde deste novo modelo (Modelo C) que já funciona em Portugal, no concelho de Torres Vedras. A comunicação social esteve presente, na esteira do primeiro-ministro, e sublinhou a presença de uma mesa com águas, cafés, fruta, snacks e sanduíches à disposição dos utentes. De resto, os presentes, ainda aguardavam para confirmar a atribuição de médico.

Para uns, este é mais um passo no desmantelamento do SNS, para outros uma ação necessária para assegurar um dos direitos mais básicos da nossa sociedade. Para aqueles, que como eu, se encontram há anos no grupo dos que não conseguem médico de família, parece ser a luz ao fundo do túnel. Mas, como diz a sabedoria popular, a luz ao fundo do túnel pode ser do comboio que vem na tua direção.

Até ao final do ano, este modelo deverá estar implementado em Silves. Nesse momento será feito o verdadeiro teste. Aí se verá, na realidade, quantos profissionais estão ao serviço, qual a rapidez na obtenção de consultas e os serviços disponibilizados. E se serão realmente todos abrangidos. E também qual o atendimento que será prestado aos que já têm médico de família.

Como sabemos, os “afortunados” que têm médico de família, penam, de madrugada, à porta das extensões de saúde por consultas que não chegam, passam temporadas sem acesso a consultas porque os médicos que estavam ao serviço ausentam-se ou mudam de local, e acabam, tal como os restantes, a terem de recorrer às urgências dos hospitais ou aos serviços de saúde privados. Até agora, os doentes dividiam-se em dois grupos, os que podem pagar os cuidados privados e os que não podem. Passará a haver várias “categorias” de utentes, mesmo dentro do SNS?

Eu pessimista me confesso e oxalá o futuro não me venha a dar razão.

Neste início de setembro, outra novidade me inquieta. O anúncio feito pela ministra do Ambiente, que deixou estupefactas as associações ambientalistas, sobre a construção de uma incineradora no Algarve. Que o Algarve enfrenta um enorme problema com o lixo, todos sabemos. São 400 mil toneladas de lixo urbano por ano, das quais 85% vão para os aterros da região que estão ambos no limite. E os números mostram que os algarvios são os que mais falham na reciclagem.

Mas queimar o lixo será a solução? Até agora, exceto a ministra, ainda ninguém veio defender essa solução. E como a decisão já foi tomada, sem que fossem esclarecidos pormenores importantes, tais como a localização da dita incineradora, levantam-se questões complicadas. Aponto apenas uma: quem vai querer uma incineradora no seu território? A União Europeia deixou de financiar estas centrais, que a Quercus considera equipamento ultrapassado e obsoleto. Portanto, o financiamento deste equipamento terá de ser pago pelas autarquias e consequentemente pelas famílias.

E vamos aceitar um equipamento que transforma uma parte do lixo queimado em escórias e cinzas, consideradas resíduos perigosos?

Está anunciado que a 15 de outubro, a Agência Portuguesa do Ambiente revelará a localização e os aspetos técnicos da incineradora.

Vem-me à memória a discussão sobre a localização do Aterro do Barlavento quando a Câmara Municipal de Silves, também pressionada pela população, recusou a instalação no seu município e depois foi surpreendida pela atitude da Câmara de Portimão que aceitou receber as contrapartidas e numa xique-espertice descarada, disponibilizou um terreno literalmente encostado a Silves, o mais longe possível da sua própria população. E causando, até hoje, os problemas que são conhecidos, à população de Odelouca e arredores.

Não estou a dizer que a situação se irá repetir, mas indo esta decisão para a frente, alguém vai ter de suportar o que ninguém quer à sua porta.

Preocupa-me esta rentrée onde os velhos problemas nos tentam iludir com outras roupagens, mas não conseguindo deixar de ser o que são.

 

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PorPaula Bravo
Natural de S. Bartolomeu de Messines, nascida em 1963. Licenciada em Comunicação Social. Desde 1986, trabalhou em vários órgãos de comunicação nacionais e regionais. Dirigente associativa. Fundadora e diretora do Terra Ruiva desde abril de 2000.
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