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António Guerreiro

Natural de Silves, nascido em 1962, é doutor em Educação Matemática, professor e diretor da Escola Superior de Educação e Comunicação da Universidade do Algarve. Os seus interesses atuais nos tempos livres são a escrita, a leitura e a fotografia.

Berliques & Berloques

Alguém sabe o que são artes de berliques e berloques? O dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia de Ciências de Lisboa refere que artes de berliques e berloques são ações por magia ou por processos misteriosos. Foi assim que me senti no último sábado (4 de janeiro de 2019) à tarde na Biblioteca Municipal de Silves. Mas retomemos ao início da história, como na televisão, no cinema ou mesmo na literatura, vejamos tudo o que aconteceu até ao presente momento e, como o filme não acaba onde começou, ainda alguns momentos posteriores aos berliques e berloques. Claro que a …

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Cidade

Coimbra, sábado, treze e trinta, hora de almoço, um jovem musculoso em tronco nu, tipo gladiador romano, passa por mim em passo de corrida, na mesma direção, mas em sentido oposto. Aquela imagem inesperada, num contexto urbano, junto ao estádio municipal, e outonal, meados de novembro, podia constituir parte de um vídeo promocional de algum perfume, nesta época natalícia, mas, em mim, materializou uma das personagens centrais do livro «O caso Sparsholt», que estou a ler, nas últimas quarenta das quinhentas e quarenta e quatro páginas, do escritor inglês Alan Hollinghurst, em que quase todos os intervenientes são homossexuais. Nas …

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Rebeldia

Quando eu era um jovem adolescente, no final dos anos setenta do século vinte, escrevinhava umas pequenas histórias de confronto moral de um jovem revolucionário contra a burguesia reinante, muito arreigada numa sociedade basicamente tradicional e salazarista. As minhas rebeldias eram idealizadas numa mudança de mentalidades, longe de confrontos físicos ou distúrbios materiais. Fundamentalmente era um jovem idealista que adotara uma chave de bocas (de prata) num fio de prata, em lugar do tradicional crucifixo num fio de oiro. Acredito na construção moral dos indivíduos e no poder das utopias de rebeldia na (r)evolução da sociedade. Os escritos repousam algures …

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Mathilde

A minha avó materna foi exposta, aquando do seu nascimento. Assim reza a história de que fora abandonada pelos pais após o nascimento ou com pouca idade. Os chamados enjeitados, numa palavra mais popular e menos erudita, pouco própria para as escrituras das paróquias das cidades e das vilas do nosso país. Sempre assumi, com alguma certeza, três ou quatro factos a propósito desta minha avó que já era sexagenária quando nasci. Que tinha sido enjeitada, no ano da graça de mil oitocentos e noventa e oito (estava errado), que fazia anos em março, que foi deixada à porta da …

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Aviãozinho

No passado mês de maio, fui duas vezes de Portimão até Bragança, ida e volta, num aviãozinho de dezoito lugares. Não tinha ideia da dimensão do avião e, por isso, estava na expetativa de como seria a viagem. Curiosamente, um avião de menor dimensão parece ser mais assustador do que um avião comercial de grande porte. Não tenho conhecimentos de engenharia aeronáutica, mas acredito que são ambos seguros (ou inseguros) dependendo das nossas crenças sobre a natureza das viagens. Antes do dia da partida, falaram-me de utentes descontentes e de utentes maravilhados. Tinha de decidir por mim. Apresentei-me à hora …

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Em estado puro

Neste mês florido de abril, o jornal faz dezoito anos e a minha colaboração faz quinze anos e quatro edições. Com a minha primeira participação, em dezembro de dois mil e dois, eu acendi uma exígua chama de utopia, que alimenta ou consome os empreendimentos, conjugada com as outras pequenas labaredas que sustentam a realidade de um jornal mensal, de âmbito concelhio, intitulado Terra Ruiva. Nestas crónicas de uma página A4 (ou dois minutos de leitura), desta feita um pouco menor, tento abarcar um conjunto de referências que sejam sábias para todos, para os jovens leitores e para os leitores …

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Electro

Vivo na capital da laranja e fui ver o concerto dos Amor Electro. Saí de casa algum tempo antes, mas já ia jantado, um jantar pouco significativo e sem qualquer sabor a laranja. Percorri as ruas quase desertas da baixa comercial. Passei por um casal silvense da minha geração ou talvez um pouco mais velhos e não disse nada. Será que as pessoas têm de andar constantemente a se cumprimentarem com um bom dia ou uma boa noite, numa cidade como a de Silves em que nos conhecemos há uma eternidade? Muitas das vezes me acham arrogante e comentam que …

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Só Palavras

Vivo, em Silves, num prédio com dez condóminos, três dos quais familiares. Trata-se de uma pequena comunidade, incluindo alguns ingleses residentes no nosso país. Esta descrição contextualiza a primeira pequena história que vou vos contar sobre o sentido e o valor cultural das palavras. Num destes dias, chegava ao prédio, após a viagem de regresso de Faro, e, abeirando-me da porta do edifício, percebi que um homem, que eu não conhecia, olhava para mim em silêncio como quem pretende entrar no prédio. Perguntei-lhe se procurava alguém, o sujeito mencionou-me um nome que não entendi, mas que me pareceu próximo do …

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Instrumental

Conheces a sensação de identificar uma canção através da sua música? As canções, incluindo os fados, contam-nos uma estória (palavra controversa com a significação de narrativa) de amor, de amigo ou de mal dizer; as canções são pequenas estórias que se agarram à vida de cada um de nós e que, por vezes, são respiradas por uma comunidade, por um povo ou nação ou mesmo pelo mundo, nesta pequena aldeia global. Apenas uma melodia, o seu instrumental é suficiente para trautearmos a sua letra. Aos primeiros acordos d’A Internacional, o meu cérebro reage com, De pé! Ó vítimas da fome, …

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Dezembro

Aí está ele, o mês de dezembro. O mês dos dias pequenos e, em consequência, das noites grandes, o mês do meu aniversário, da dádiva natalícia e da despedida do calendário. Recordo aqueles calendários do mês de dezembro, em geral, apenas até ao dia de natal, em que, em cada dia, existia uma janelinha com um número e uma decoração e, por detrás da respetiva portada, de cada uma das aberturas, um pequeno bombom quadrangular, com uma espessura mínima, embrulhado numa pratinha colorida. Esses calendários eram tão bonitos que dificilmente se destapava cada dia e se comia o respetivo chocolate, …

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