Os meus almoços são quase sempre fora de portas, seja nos restaurantes da baixa de Silves ou em Faro, no contexto escolar, com exceção dos domingos. Num dos estabelecimentos da cidade, costumo almoçar o prato do dia, à mesma mesa, com vários outros clientes habituais: funcionários camarários, guardas republicanos, bombeiros voluntários, funcionários judiciais, professores e amigos.
Num desses encontros, um dos convivas queixava-se do escasso desenvolvimento urbano da cidade de Silves. A conversa desembocou, como quase sempre, na evocada «maldição do bispo». Segundo o que consegui apurar, existe apenas um episódio histórico sobre esta praga episcopal: o bispo Dom Álvaro Pais, expulso da cidade, na primeira metade do século XIV, por ter tecido severas críticas aos vícios e erros dos silvenses –e entre os quais a alegada poligamia – ,ter-lhes-á lançado uma maldição. Contudo, à mesa daquele restaurante, falou-se no último bispo de Silves, D. Jerónimo Osório (século XVI), e da popularizada frase que (erradamente) lhe é atribuída: De Silves nem pó, proferida enquanto batia com as sandálias num pedra, a caminho de Faro.
Esta breve referência despertou em mim uma antiga recordação: o camião da Liga Nacional de Cegos. O veículo circulava pelas terras portuguesas transportando um automóvel de luxo (para a época), destinado a ser sorteado entre os compradores de rifas que ajudavam a financiar a instituição. Teria sido num dia de 1972 ou 1973 que esse camião atravessou a artéria principal da cidade, anunciando o sorteio na “Vila de Silves”. Aqueles forasteiros, na cidade milenar, não a reconheceram como tal e classificaram-na, com toda a naturalidade, como vila. Fiquei indignado, mas rapidamente compreendi que Silves não era cidade pela dimensão da sua população, mas apenas por estritos motivos históricos integrava o limitado grupo das cinco cidades algarvias (Lagos, Portimão, Silves, Faro e Tavira).
Retomando a conversa de café (neste caso de restaurante), sempre que me falam da (reconhecida) falta de urbanidade silvense, respondo que, para dar a volta à situação, é prioritário definir uma estratégia de desenvolvimento económico.
Em Silves, a política municipal tem centrado, sobretudo, a sua ação em preservar e qualificar o território através da requalificação urbana e da valorização patrimonial. Falta, contudo, ir mais além, para garantir o futuro e fixar população jovem, empresas e dinamismo: atrair investimento; fomentar a incubação de empresas; promover habitação acessível para residentes permanentes; reforçar a ligação à economia digital e captar talento qualificado.
De resto, todos nós valorizamos a cidade milenar, mas raramente exigimos mais urbanidade, mais vitalidade e mais futuro para Silves.







