No verão em que voltou a febre das cadernetas e do abafa, uma descoberta curiosa: há quase um século, Silves entrou numa coleção de cromos de chocolate que se vendiam por toda a Europa.
Neste verão de 2026, com o Mundial de futebol ainda em curso e a final marcada para 19 de julho, voltou a velha febre dos cromos. As papelarias esgotaram as cadernetas, miúdos e graúdos trocam figurinhas repetidas à porta da escola e nos cafés, e até o jogo do abafa regressou aos recreios. É no meio desta moda revivida de outras gerações que cabe uma pequena surpresa: há quase um século, também Silves foi cromo de coleção.
A peça é minúscula e cabe na palma da mão: um cartão de cartolina, cor de sépia, do tamanho de meia carta de jogar, que vinha dentro do papel de uma tablete de chocolate da suíça Suchard. E o que nele está fotografado é a nossa cidade — Silves vista do lado da várzea, com a Sé à esquerda, as torres do Castelo à direita, o casario a descer a encosta e, em baixo, gente nos campos e roupa estendida a secar. Ao canto, o crédito fotográfico: «Photo. V. Fourgous».
O cromo Suchard n.º 198 — «Portugal. SILVES. Vue générale» —, assinado «Photo. V. Fourgous»: Silves vista da várzea do Arade, com a Sé e o Castelo no alto do cerro. Collection Européenne, c. 1933–1934.
Uma Panini antes da Panini
O cromo pertencia à Collection Européenne da Suchard — uma série de 300 vistas de cidades de toda a Europa. E o jogo colecionista era semelhante ao de hoje. Cada tablete trazia uma imagem diferente; o coleccionador colava-a, pelo número, num álbum próprio; trocava as repetidas com os amigos; e, para completar a coleção, lá tinha de comprar mais chocolate. Quem conseguisse juntar tudo enviava o álbum para a casa Suchard, em Paris, e recebia um prémio — chocolates ou mesmo um relógio. Trocar, colar, completar: talvez um entusiasmo longe da euforia dos cromos do Mundial, mas em 1934.
Para se ter ideia, a caderneta deste Mundial é a maior de sempre, com quase mil cromos; a de Silves fazia parte de uma coleção de 300. Muda a escala, não muda o lado viciante.
«Só lhe falta a casbah»
O verso do cromo menciona as fábricas Suchard de Paris e Estrasburgo — e a de Estrasburgo só abriu em 1930 —, e o álbum onde estes cromos se colavam está datado de Janeiro de 1934. Ou seja: este retrato de Silves circulou pela Europa há cerca de noventa anos.
O mesmo verso traz ainda uma curiosa descrição da cidade, escrita por algum redactor francês que talvez nunca cá tivesse posto o pé. Fala de Silves como uma cidade muito antiga e meio esquecida, capital do Algarve no tempo dos mouros, decaída quando o rio assoreou e deixou de ser navegável.
E remata: com as suas palmeiras e o seu sítio, «só lhe falta a casbah».
O homem, olhando apenas para uma fotografia, não andou longe da verdade. A antiga Xelb foi capital muçulmana do Gharb — o Algarve — e esse passado árabe está ainda hoje gravado no grés vermelho do castelo e da cisterna. (Um reparo, já agora: o cartão diz que a catedral é «do século XII»; a Sé que ali se vê é gótica, do final do século XIII, erguida já depois da conquista cristã.)
A capa do álbum da Collection Européenne (Chocolat Suchard, Paris), datado de Janeiro de 1934: a Europa desenhada a ouro, sob um céu de estrelas.
Um chocolate que sonhava a Europa
Mas a maior surpresa está no próprio álbum, do qual chegaram até nós exemplares que permitem conhecê-lo por dentro. Não era uma simples caderneta. Na capa, a Europa surge desenhada a ouro, como um continente a nascer num céu de estrelas. Lá dentro, um prefácio contava como se foram formando os países europeus, do Império Romano a Carlos Magno, e as páginas chegavam a evocar a ideia de uma União Europeia, lançada pelo francês Aristide Briand poucos anos antes. Tudo isto em Janeiro de 1934 — quando a Europa real, bem se sabe, caminhava em sentido contrário. Sem grande alarido, a nossa Silves entrava numa coleção que se sonhava europeia.
Este pequeno cromo é, muito provavelmente, uma das primeiras fotografias de Silves a correr o mundo em grande quantidade — uma espécie de cromo «Panini» muito antes da Panini, trocado de bolso em bolso por essa Europa fora. Quanto ao fotógrafo, V. Fourgous: o nome está impresso e o crédito é real, mas quem ele foi, isso ainda não sabemos.
Fica a imagem para guardar. Hoje colecionam-se futebolistas; há noventa anos, algures na Europa, alguém colava no seu álbum a vista n.º 198 — a nossa Silves. Também isto é a memória de uma terra.









