Memórias Breves (22) – Nossa Senhora dos Pretos

O Algarve e os escravos africanos… Tudo começa no século XV, com as chamadas descobertas pela África, com o “negócio” dos compradores de africanos, chegados a Lagos.
A narrativa de hoje é uma festa religiosa: “A Nossa Senhora dos Pretos”, assim dita, cruelmente, tinha, no tempo, numa naturalidade. Os escravos, a meio do século XVI abundavam, mais pelas 3 cidades do Algarve: Silves, Tavira e Faro, esta com a primazia… Com a deslocação da Diocese de Silves, para o Sotavento algarvio, a população escrava, chegou ao meio do século XVI, num excesso, em cerca de 60%, da população local.

E será pela nova Diocese de Faro que a nossa narrativa se desenvolve mais esclarecida e afirmativa.

O Algarve, sendo o pequeno “reino”, no tempo do Senhor Infante Henrique, com os seus negócios, como naturalmente assim se exigia, tinha uma “delegação” em Faro, de negócio escravo. Vamos visitar a Catedral de Faro, lá temos o túmulo do negreiro, onde se ostenta pessoa distinta da cidade, o distinto cavalheiro Rui Valente, túmulo recentemente descoberto, camuflado, mas que o historiador e académico Alberto Iria, já nos anos 50 do século passado, afirmava estar sepultado na Sá Catedral de Faro, e citando a capela, em túmulo próprio, do citado negociante de escravos africanos. Só após a democracia em Abril, a meio do século XX, às portas do XXI, uma equipa de técnicos desmonta a capela, mostrando a “vergonha” escondida.

Faro, a meio do século XVI, seria a localidade algarvia com maior poder económico da religião. Os escravos foram pertença da igreja, da alta e média sociedade, e patronal, de ofícios e de trabalhos rurais. Enfim! Escravos para todo o serviço. E é na cidade de Faro, que atualmente encontramos esses registos, certamente nas igrejas.

Nossa Senhora dos Pretos, na Igreja de S. Pedro, em Faro

Mas é na Catedral de Faro que iremos esclarecer os conteúdos: Vamos aos dois negros expostos na majestosa capela da Senhora do Rosário, onde um bispo mais esclarecido entrega a capela como um “sindicato”, ou seja um espaço de defesa de alguns “direitos” aos escravos, como se de uma organização sindical se tratasse. É um começo de “direitos” aos negros, em que pagando uma quota à Senhora do Rosário, como protetora, é-lhes dado uma breve “cidadania”… Lá estão, no “salão”, espaço da entrada da capela, dois vigilantes: duas figuras admiráveis de negros, em nudez natural, numa trapagem a cobrir as partes.

Vamos, numa breve olhadela, à capela de S. Domingos, lá está o túmulo, recentemente recuperado, do negreiro Rui Valente, século XV, homem de negócios de escravos, entre outros… Vamos percorrendo outros templos, pela cidade. Temos a igreja da irmandade dos Capuchos, numa talha dourada e admirada no estilo barroco. Lá está uma coluna carregada de “ouro”, que é suportada por um negro. Numa minha publicação, já lhe dediquei um título de “O Anjo Negro”. Vamos correndo a cidade eclesiástica, nos seus monumentos. Paremos no modelo mais barroco do sul do país, a igreja do Carmo, construída no início do século XVIII. Temos um admirado talhador-escultor de imagens, natural de Faro, Manuel Martins, homem do povo, filho de pescadores, o expoente máximo do movimento barroco, no Algarve. Numa capela se mostra um bispo negro. Os mistérios da Igreja…

Vamos ao encontro de “Nossa Senhora dos Pretos”, na popular igreja de S. Pedro. A chamada igreja dos Pescadores. S. Pedro é o bairro deles, que ficou marcado pela igreja da gente do mar, bairro popular que teve a “Senhora da Vitória” como padroeira dos pescadores. As autoridades eclesiásticas sempre tiveram dificuldades em “dominar” esta gente popular, homens do mar. Então as suas procissões tomavam carácter “pessoalíssimo” de obreiros marítimos e caprichosos nas suas organizações sociais.

Tem as célebres procissões dos pescadores, onde o escravo tem as honras de gente, sendo-lhes cedido um melhor vestuário para as cerimónias, em que as procissões tomam um falso carácter de “igualdade”. Consultando “Senhores e Escravos no Algarve” – 1580-1700-, do estudioso Jorge Fonseca, lá encontramos essa colaboração, na “igualdade” do vestuário dos pretos, nas cerimónias religiosas e só nessa situação festiva: Os negros – escravos são vestidos e calçados como gente da cidade, e os seus donos participam nessa falsa cerimónia, de tudo “igual”. E como afirmavam: “Hoje, muito bem vestidos vão visitar Deus”. No dia seguinte o escravo seguia na sua meia-nudez.

Quando a investigadora Paula Moura Pinheiro, veio a Faro saber dos escravos, ficou num espanto de luxo dos pretos e pretinhos, todos muito bem vestidos, conforme o quadro, pintado no tempo da festa dos pescadores de Faro, na célebre procissão da “Senhora da Vitória”, descobrindo o logro do luxo exclusivo para um dia de cada ano. Como se anunciava: nesse dia da S.ª da Vitória, os ricos ou menos, donos dos escravos, recebiam a benesse de Deus. O quadro de “Nossa Senhora dos Pretos” está exposto na igreja de S. Pedro, no luxo dos negros, em que os seus donos cumpriam a tradição dos pescadores.

A porta da Igreja de S. Pedro está aberta a uma visita ao quadro, de pintor anónimo “Nossa Senhora dos Pretos”, que vem dos tempos religiosos de Faro, séculos XV-XVI-XVII-XVIII.

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