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Ambiente & CiênciaConcelho

Um santuário para as aves na freguesia de Messines

Terra Ruiva
Última Atualização: 2026/Mai/Sex
Terra Ruiva
1 hora atrás
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Em maio de 2025, o jornal Terra Ruiva fez uma notícia sob o projeto, lançado pela Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves – SPEA, da criação de uma Rede de Santuários para as Aves, precisando que um desses santuários situava-se na Freguesia de São Bartolomeu de Messines.

Um ano depois, o proprietário do terreno dá conta da sua experiência e dos resultados alcançados.

Vista global do terreno

 

O terreno foi incluído na rede de santuários em janeiro de 2025, por ter respondido a certos critérios, como ter uma área superior a mais de um hectare, dispôr de pontos de água, estar perto duma Rede Natura 2000. Este terreno, situado em Fonte João Luís, de certa forma prolonga a Zona Especial de Conservação do Barrocal (Rede Natura 2000) que chega até ao Pico Alto.

No ano passado, os técnicos da SPEA efetuaram os trabalhos de inventariação a fim de analisar o  terreno, a cobertura vegetal e monitorizar a aviafauna diurna e noturna. Com o propósito de implementar certas medidas  de gestão e de estabelecer um plano de ação para os próximos cinco anos.

A charca

A flora

Resumidamente, constatamos que esta área está ocupada por uma flora bastante rica e com plantas autóctones típicas do Algarve. Uma parte do terreno é coberta por mato  misto, de tipo  arbustivo, com algumas folhosas e resinosas.  Encontramos vários tipos de quercus, a nível arbustivo predomina o medronheiro e as aroeiras, a mirta e o resto é constituído por plantas como rosmaninho, roselha-grande, tojo-do-sul, alecrim e uma grande variedade de flores e de orquídeas. A parte baixa do terreno é composta por árvores de sequeiro como oliveiras,  alfarrobeiras, figueiras e amendoeiras.

Carriça

A avifauna

Aproximadamente  umas cinquenta  espécies utilizam os recursos  do terreno ao longo do ano. Estas espécies distribuem-se entre residentes, invernantes e estivais. E contam-se ainda alguns migradores de passagem.

As aves residentes são compostas principalmente por  Chapins, Carriça, Toutinegra-de-cabeça-preta, Charneco, Melro-preto, Pardal-comum, Pica-pau-malhado, Pica-pau-galego, Trepadeira-comum etc…

Entre os invernantes observam-se sobretudo  a Felosa-comum, o Pisco, o Lugre, o Tordo-músico, a Toutinegra-de-barrete, o Estorninho-malhado… Nas espécies  estivais  destacam-se o Rouxinol, o Papa-figo, a Andorinha-daurica… Nas migradoras de passagem observam-se o Papa-moscas-cinzentos, a Toutinegra-das-figueiras, a Felosa-dos-juncos…

Dada a quantidade  de espécies recenseadas o objetivo consiste prioritariamente em conservar estas espécies e em  segundo lugar tentar atrair outras em declínio, como o Mocho-galego…

Por conseguinte,  teremos que melhorar os  recursos diversos de que as aves necessitam  o que nos obriga e repensar globalmente as cadeias alimentares e o terreno como refúgio.

 

As medidas a implementar

Todas as medidas ainda não foram completamente definidas,  sendo esta parte um processo que requer mais tempo a fim de analisar, caso a caso, as mais apropriadas.

Contudo, já iniciámos o trabalho de  remoção das plantas exóticas ou invasoras. Como a substituição das canas ao longo da linha de água por uma variedade de plantas autóctones, a fim de criar uma sebe perene e funcional.

As razões que me levaram a participar no projeto da SPEA

Sempre fui apaixonado pela natureza e pelas aves em particular. Já há muitos anos que estou envolvido em organizações ambientais. Também tenho acompanhado a SPEA e quando tomei conhecimento do projeto fiquei logo muito interessado. A iniciativa pareceu-me  particularmente pertinente num contexto de erosão generalizada da diversidade biológica, tanto a nível europeu como português. Não se trata apenas de perceção subjetiva. Todos os estudos de monitorização documentam um declínio que toca  muitas das nossas aves comuns. Mas não só,  outras ordens de animais como insectos, anfíbios, peixes, micro mamíferos,  etc  estão também a sofrer uma perda importante de populações.

Só para dar uma ideia do declínio na avifauna a nível europeu, um estudo da Universidade de Montpellier, publicado em maio de 2023,  resultado de uma colecta de dados sobre 40 anos de monitorização, aponta para uma perda de mais de  800 milhões de aves. Vinte milhões por ano !

Andorinha-daurica

A necessidade da  entrada da sociedade civil no jogo da conservação

Até aqui as políticas públicas de conservação, tanto europeias como nacionais, pareciam suficientes para preservar a biodiversidade. Considerava-se que, uma vez que um conjunto de áreas fossem classificadas e protegidas o resto do território não tinha interesse particular e poderia ser submetido a um tratamento qualquer. Visivelmente esta divisão do espaço  não funciona como esperávamos. Se as  áreas protegidas não garantem a conservação nem das populações nem das espécies, põe-se  então a questão, a meu ver, de alargar as ações de conservação a toda a sociedade civil e pelo menos a todos aqueles que têm terrenos de interesse natural, dando-lhes a possibilidade de agir. Não nos esqueçamos que mais de 90% do território, onde está assente uma extensa diversidade biológica,  é de propriedade privada e é aqui que há muito por fazer.

Um aspeto muito positivo a que deu lugar o anúncio desta iniciativa foi o interesse que  suscitou. O facto das candidaturas  a esta rede terem sido quase dez vezes superiores ao que estava previsto, é muito encorajante.

Uma esfera de ação negligenciada pelo movimento progressista. 

A proteção da biodiversidade não deveria ser coisa anexa na preocupação das pessoas, dos poderes públicos e do movimento social. O movimento progressista e humanista, através das lutas sindicais, sociais e políticas, marcou avanços inestimáveis para as pessoas e para as sociedades.  Direitos estes que estão hoje ameaçados por forças políticas contrárias que nunca desarmaram. Não convém baixar os braços e a luta continua, tanto para defender estes, quer para conquistar novos.

Infelizmente, o movimento progressista ainda não soube articular todos estes direitos, ao direito de viver num sistema ambiental não poluído, com ar puro, com água pura, livre de poluições diversas, considerando tudo isto também como um dos direitos fundamentais. A luta para os direitos sócio-económicos e culturais é inseparável da luta pelo direito a um ambiente rico e diverso em termos de formas de vida. E quanto mais rico e diverso for, mais a natureza será resiliente e mais chances terá a espécie humana de viver uma vida digna. Como dizia um filósofo do século XIX  «A natureza é o corpo inorgânico do homem ».

Convém, por fim, tomar consciência de que, como o diz e preconiza a Organização Mundial da Saúde  «One health ! ».  « A saúde é só uma ».

 

Texto e Fotos: Joaquim Soares

 

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