“Sem reflexão, continuamos a reagir aos nossos filhos a partir das nossas próprias questões não resolvidas.” Daniel J. Siegel
A frase de Siegel resume um dos maiores desafios da parentalidade atual: muitos pais educam em piloto automático, repetindo padrões que nunca questionaram. Muitos pais estão exaustos, sobrecarregados, divididos entre trabalho, responsabilidades e a pressão constante de “dar conta de tudo”. O mundo mudou — e as exigências sobre as crianças também.
Segundo o EU Kids Online (2023), mais de 80% dos jovens portugueses entre os 9 e os 17 anos usam redes sociais diariamente, e quase metade já teve contacto com conteúdos violentos ou de ódio. Estes números mostram que a internet participa ativamente na educação — quer os pais queiram, quer não.
As redes sociais tornaram‑se espaços onde se aprende, imita e absorve. Vídeos curtos moldam comportamentos, influenciadores tornam‑se referências e discursos de ódio circulam com a mesma leveza que memes. Se os pais não estiverem presentes — verdadeiramente presentes — alguém ocupará esse lugar.
A paternidade consciente surge como resposta urgente. Não é moda, é necessidade. Exige escuta, orientação e relação. Exige que os pais se olhem ao espelho antes de pedir aos filhos aquilo que eles próprios ainda não aprenderam a gerir.Os desafios atuais pedem adultos capazes de falar sobre violência, discriminação, ansiedade, pressão social e comparação constante. Se estas conversas não acontecerem em casa, acontecerão online — e nem sempre com adultos responsáveis.
O Centro Internet Segura registou, em 2023, um aumento de 30% nos pedidos de ajuda relacionados com cyberbullying. A agressividade tornou‑se banal: comentários cruéis são “brincadeira”, ataques pessoais são “opiniões”. A violência verbal tornou-se tão banal que já quase não choca. Mas isto marca as crianças, molda‑as e, mais tarde, repete‑se nos comportamentos que criticamos.
Ser pai/mãe hoje é mais do que garantir escola e alimentação. É ser referência num mundo de referências frágeis. É ensinar empatia num ambiente que recompensa o sarcasmo. É mostrar que a força está na escuta, não no grito. É ser porto seguro quando tudo à volta incentiva a competição, a comparação e a pressa.
Se queremos uma geração menos violenta, menos ansiosa e mais humana, precisamos de pais mais atentos, mais envolvidos e mais conscientes. A educação começa em casa, continua na escola e espalha‑se pela comunidade. Mas o primeiro passo é sempre nosso.
Um estudo da American Psychological Association (2022) mostra que crianças com pais emocionalmente disponíveis têm menos ansiedade, maior autorregulação e menor propensão para comportamentos agressivos. Não se trata de perfeição — trata‑se de presença. E presença é difícil num tempo de exaustão adulta. Mas quando os pais se ausentam emocionalmente, o espaço vazio é rapidamente preenchido por algoritmos e influenciadores.
Saber ser pai/mãe é um processo contínuo. Como lembra Siegel: “Quando nos tornamos pais, trazemos connosco questões do nosso próprio passado que influenciam a maneira como educamos nossos filhos.”
A paternidade consciente exige humildade, tempo possível e disponibilidade para aprender. Educar é um ato de coragem — e também uma das maiores dádivas.
“Com a resolução das nossas próprias questões vem maior escolha e flexibilidade na maneira como respondemos aos nossos filhos.” Daniel J. Siegel
Partilhe suas ideias, opiniões, … helenamapinto@gmail.com






