Arquivos Tags: José Alberto Quaresma

Alergia Breve

Alergia breve. É sempre a mesma coisa. Todos os anos, Primavera alta e Verão baixo, lá vem ela. Breve, gostaria que fosse. Este ano, parece o romance quase homónimo de Virgílio Ferreira, Alegria Breve. Nunca mais acaba. 275 páginas. Ou dias. A alergia breve começa pelo pingo doce. Presumo. Ainda não o provei. Um após outro, o pingo vai empapando lenços de papel, a devastar hectares de eucaliptal. Seca a terra. Seca o rechonchudo que me abriga. A seguir, vem o espirro tonitruante. Uma ventania saída da alma. Revolve a atmosfera. Infinitas gotículas suspendem-se da nuvem gigantesca. Diz quem sabe …

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A menina Pulquéria

A menina Pulquéria foi a última governanta de Coco Chanel. Tinha sido criada de servir da nossa avó Violante. Veio da Gralheira da Amorosa para Portimão, aos sete anos. Nasceu, em Setembro de 1929. Ficou órfã de pai e mãe. Pulquéria nunca frequentou a escola. O capelão da família ensinou-lhe as primeiras letras, a tabuada, e uns rudimentos da língua francesa. Conservou-se em casa da avó, uns poucos de anos. Tratada como se fosse da família. Com nove anos, já servia à mesa. Era diligente. Foi aprendendo as lides da casa. Mantinha as camas irrepreensivelmente feitas, lençóis bem engomados, colchas …

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Vítimas da Pandemia

Joaquim de Almeida Negrão A maldita pandemia matou-o aos 79 anos. Joaquim habitava com a família na Praia da Rocha. Tinha construído o seu ‘chalet Negrão’ para sentir os cheiros, rugidos e murmúrios do mar. E descansar o olhar na paixão de toda vida. Joaquim agonizou no leito e extinguiu-se no fim de Outubro de 1918. António Corte-Real Negrão, o seu filho, de 27 anos, também foi levado, poucas horas depois. Este filho varão deixou dois herdeiros de tenra idade. A viúva, ainda lutava contra a doença, quinze dias depois… Esta pandemia já, em 1918, assim era referida nos jornais. …

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25 de ABRIL- Um problema

O 25 de Abril foi um problema. Continua a ser. O rapaz da foto tem razão. Não tem coragem é de olhar de frente. Parece tímido. Está ali apenas a centrar-se à volta de 1974, mais coisa menos coiso. O rapaz contou-me, em cochicho. Espero que não se zangue por lhe revelar algumas confidências. O problema maior do 25 de Abril é apenas um. Devia ter acontecido muito antes. Um tio, irmão da mãe, que tinha o nome com que o rapaz seria baptizado, José Alberto de Oliveira, penou horrores, encarcerado vários anos, às mãos de uma sinistra organização terrorista, …

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Teletrabalho ao perto

Um marido em casa é um atrasado mental. Em tempos de peste, é um deficiente profundo. É o que diz a minha esposa, a Ermelinda, apesar de tudo, uma santa mulher que me levou ao altar, já lá vão vinte e cinco anos. Habitualmente, não paro em casa. A minha esposa também não. Trabalhamos os dois. Saímos cedo, cada um para o seu lado. Reencontramo-nos à noite, no sítio do costume, a sagrada capela dos bocejos, diz ela. Em casa, o ambiente é o que tem de ser, digo eu. A cabeça vem cheia do serviço. Não dá para grande …

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Prisão Domiciliária

Estou preso. Em casa. Sem culpa formada. Há três semanas que para aqui estou. Feito parvo. Em estado de cagaço. Estado de necessidade. A minha prisão não foi decretada por nenhum juiz. Nenhum procurador me mandou procurar. Não fui apanhado em qualquer controlo. Muito menos sanitário. Conservo a sanidade. A mental. A outra, ignoro. Nenhum crime me pesa na consciência. Talvez porque seja leve. A consciência. Um saco de serapilheira pouco diáfana e funda. Onde esburaco pudores, pruridos, preocupações, temores. E o respeitinho pela lei. Convém. Dizem, os meus fiéis inimigos, que sou um afecto-contagiante. Exageram. Não quero é ser …

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João de Deus 190 anos

Mais uma volta redonda no calendário da eternidade de João de Deus. Regressa, como sempre, pela cauda do Inverno. Celebram-se 190 anos sobre o seu nascimento. Está bem vivo. Muitos reparam. Outros, nem por isso. Podiam procurá-lo. Passar lá por casa. Entrar na sua intimidade. Conhecê-lo melhor. Merece. 1815. São Bartolomeu de Messines. Isabel Gertrudes, da Amorosa, e Pedro José, de Alcantarilha, aqui encalham. Não tarda, celebram casório. Amores firmados, filharada a rodos. Concebem uma dúzia. Perdem um terço. João de Deus, nascido a 8 de Março, recebe o nome do irmão mais velho, falecido pouco depois do nascimento. Dar …

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Ronaldinhos

Cristiano Ronaldo fez 35 anos. Até poderia fazer menos. O vigor não seria menor. Surpreende? Claro. Ronaldo é um rico atleta. E um atleta rico. Muito rico. Modelo para menino que se preze, na parte do rico atleta. Na parte do atleta rico, é mais exemplo para pai de menino. O currículo de Ronaldo impressiona. Não vale a pena esmiuçá-lo. Toda a gente o conhece. O pai do menino, melhor do que ninguém. E o menino também. A parte do currículo que interessa ao menino é boa. Espevita-lhe os sonhos no silêncio da noite. Estádios a abarrotar. Vê-se em fintas …

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De predador a perdedor

Homem do sexo masculino é predador. E de predador a perdedor vai um passinho. Suave ou abrupto. Longo ou curto. Acontece. Sempre. Não o deseja. Nem acredita na mudança. Almerindo, assim que lhe despontou o buço, começou a ser notado. Bonitinho. Espigado. Pérolas magnéticas nos olhos. Era desejado. Ou assim se sentia. Com 15 anos, chegou às primícias da carne. Não como o seu pai, já que os tempos eram outros. Papá foi, pela mão do avô, franquear a porta da casa de meninas da rua do Carapeto. Era o costume. Iniciação rápida. Profissional. Papá entrou petiz. Saiu, minutos depois, …

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De costas para ti

Amo-te. Deixa-me estar frente a ti. A repousar meus olhos. Tua boniteza atrai-me. Desde sempre. Intimidas-me. És grande. E frio. Raro me dás um afago morno. Por estes dias, não me atrevo a descer até ti. Tens bramidos que parecem vir do fundo da alma de homens malvados. Sacolejas-te muito. Enfureces-te, não raro. Teus perdigotos salpicam-me o rosto. Perturbas-me. Quando te olho, enterneço-me. Nada vejo para além de ti. A não ser a ténue linha ao fundo. A do teu silêncio. Onde te dobras. Finges desaparecer. E continuas mais além. Onde imagino que te não deixas prender. Fazes parte de …

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