Não é fácil apresentar-se no órgão mais representativo da democracia. Nos últimos anos as atitudes de alguns deputados melhoraram. O salto qualitativo deu-se nas passadas eleições legislativas. A perfeição, ainda assim, pode ser alcançada. Há que lutar por ela, tal como 60 dos deputados o fazem.
Fui consultar o velho Savoir Vivre, o Guia Larousse das Boas Maneiras. Quanto aos gestos e à postura, mantém-se atual o conselho de Rousseau. “Brilhamos pelo adorno, agradamos pela pessoa”. O Guia, traduzido para português há trinta anos, está desatualizado.
Proponho alterações para este século XXI. São inspiradas no comportamento cívico exemplar daqueles parlamentares que obedientemente seguem o seu chefe. Nos 50 anos da Constituição, ousou enaltecer os deputados fundadores do regime democrático. Alguns dos presentes deixaram-no a falar sozinho. Não se faz.
Por todas as razões, uma senhora deputada, ao sentar-se, deve alisar com as mãos o traseiro para evitar rugas nas saias. Não deve despir o casaco sem pedir autorização ao dono da casa, aquele. A mala nunca se baloiça na mão para não dar nas vistas, evitando os incómodos que atormentam ainda o ex-deputado Miguel Arruda.
Coçar-se, roer as unhas, limpar a cera dos ouvidos ou espreguiçar-se com um dos braços esticado é patriótico. Emitir barulhos pelo nariz ou boca é salutar. Fazer boquinhas de cú, como o deputado Melo, são de enorme elegância e saber estar. Risos de escárnio e maldizer, de boca escancarada, são desejáveis. Urros de urso ou cacarejos de galinha choca caem bem. Ruído que seja bem audível nas bancadas e nas galerias ajuda a manter a compostura parlamentar.
Mandar para a terra dela uma deputada, muito bronzeada antes da época balnear, faz todo o sentido. É injusto que um deputado de raça ariana tenha de ir ao solário ou esparramar-se ao sol para ficar da cor escura dos impuros. Ter de exibir a pele cor de rosa – um horror! – antes de ficar bronzeado e preto é o menor dos sacrifícios.
Bocejar é desejável quando os oradores dos partidos da oposição empastelam ou gaguejam. Pendedelas, em slow motion, acalmam os nervos.
No que respeita às manifestações orgânicas de cada um, há que ser o mais natural possível. Não reprimir uma ventosidade que queira soltar-se no hemiciclo. Odoriza a atmosfera tóxica e apazigua os ânimos. Deixa uma marca, infelizmente delével, da autoridade destes verdadeiros príncipes e princesas da República.
Duche mensal é o mais desejável. Poupa os recursos hídricos. Mantém o sovaco saudável. E o coração cheio de bondade e a cabeça aberta aos ventos que vêm do Velho Oeste. O oxigenado cowboy tem sido inspirador a governar o mundo. Acabou com todas as guerras, para bem do seu umbigo e dos nossos pecados. Merecia o Nobel que a Corista Machado lhe dedicou. E o IgNobel que a universidade de Harvard atribui anualmente.
Finalmente, um bom perfume é necessário nas apresentações públicas. Eau de Javel, prestigiada marca francesa, é adequado. Não custa uma fortuna e permite estar encostado a qualquer deputado da oposição, mantendo-se asséptico.
A democracia ficará mais saudável. Quando se troca, o “não é não” pelo sim é sim, não se é troca-tintas. Faz-se apenas um intrujuramento da Constituição, com boas maneiras, levando a Eau de Javel ao seu moinho. 25 de Abril. Sempre? Ou nunca, como querem os adoráveis assépticos da nossa democracia?







