Fedelho ou badameco. Mocinho jeitoso, diziam. Não se achava. Tinha mais vergonhas do que crenças.
Quem o fez artista foi Júlio Bernardo. Artista é força forçada de expressão. Apenas uma pequenina esperança de talento. Talvez. Presunção e água salgada tomou-a sem a querer. Cedo chamou pelo gregório. A presunção secou. O artista mirrou.
Júlio Bernardo e D. Almerinda passavam as férias de Verão junto ao mar, numa casa dos avós, com os três filhos, Sérgio, Paula e Manuela. O badameco, espremido em idade entre a Paula e a Manuela, era também ungido pelos seus sorrisos compassivos.
Crianças como filhos, e não apenas os Bernardos. Havia que ocupar o tempo. Aquietar as bernardas pacíficas que armávamos. Praia, de manhã à noite. Apanha de peixinhos-rei, polvos meninos, camarões translúcidos, caranguejos de tenazes cortantes, moreias para secar ao sol.
Tropelias, muitas, na eira onde se secavam os figos e nas duas fazendas, à coca de maçãs, uvas, peras, albricoques e pardais.
Debaixo da amoreira travavam-se sádicas batalhas. Tisnados de sangue vivo de amoras, nos rostos, mãos, braços e pernas. À algazarra nos combates, acudiam pais e avós. Gritos e gargalhadas sonoras mostravam que o sangue era só na epiderme. Custava a sair, esfregando com sabão macaco. Já ná preceite! lamentavam-se a avó, a mãe e a D. Almerinda que tinham de limpar a porqueira.
Dias contentes. Orla costeira e praia em esteiras infinitas que se desenrolavam em sonhos na luz dos dias. A linha do horizonte, à coca de maravilhas, esticava-se além a lamber mar e céu. Trepávamos falésias e rochedos. As moles rochosas da Mesa ou do Careanos punham gravidade no olhar. A maré espumava-se branca nas rugas de calcário e argila. Só o cansaço nos derrotava.
Júlio Bernardo punha a pequena tropa fandanga na ordem. Ó meninos, isto na é só maluqueira, vamos amansar! E lá nos levava pela arreata para a praia, ali em baixo. No calmeiro da baixa-mar, punha-nos a idear a arte lampinha, escavada pelos nossos dedinhos. A fazer da areia húmida matéria molenga para criações efémeras.
Queria-nos Fídias ou Camille Claudel, toscos imberbes artistas dos Careanos, conhecida pela praia do José Quaresma.
A intenção era treinar para o Concurso da Areia que o Diário de Notícias organizava nas praias de Portugal todos os anos, a partir de 1952.
O talento tinha de esmerar-se e ter pressa. Menos de uma hora na competição, em três metros quadrados de areia húmida. Erguíamos um monte e esculpíamos as figuras, para cativar o júri do concurso. As centenas de pessoas, pais, familiares e curiosos, especados ao sol inclemente, rendiam-se ou enfadavam-se.
Éramos recompensados. Ganhávamos o primeiro prémio, nas três categorias. Júlio Bernardo tinha-nos ensinado a fazer construções em altura e não deitadas. Uma inovação, mais tarde repetida pelo país. Surpreendia.
Nas fotografias, está o fedelho e um dos seus trabalhos premiados, o «Compadre Alentejano».
Bem mandado, o badameco foi a quatro edições da competição de centenas de crianças, entre os 6 e os 15 anos, na Praia da Rocha e na Praia de Armação de Pera. Obteve três primeiros prémios e uma menção honrosa.
O primeiro prémio era uma bicicleta, nas três categorias, na medida do pernil dos laureados. Entregue, em cerimónia protocolar, no palco dos casinos da Praia da Rocha e de Armação de Pera, quando a impiedosa maré já tinha varrido as obras-primas. A arte ficaria eterna, apenas no coração de quem tivera as mãos ásperas de areia.
As três bicicletas que o fedelho colecionou não cresceram com o futuro latagão. Acabaram ferrugentas, engelhadas no ferro velho.
Aqui fala apenas de si. O Sérgio e, sobretudo a Paula e a Manela, de idade mais temporã, ganharam infinitos prémios. Têm muitos segredos que seria bonito revelar.
Naquele cantinho de mar e terra, Júlio Bernardo foi mestre na transformação da matéria bruta de crianças brutas em pessoas atentas e sensíveis. Voltou-as para onde a arte merecia contemplação e, se possível, criação. Em todo o tempo e mais ainda na baixa-mar assombrada destes dias.
Júlio Bernardo, artista fecundo. Tanto deu de si. Por cá permanece. A limpar nuvens, a sossegar marés, a infundir de voz suave – não se apressem, amaciem o olhar! Sim, na paisagem e nos dedos que moldam a areia, o barro ou a vida.








