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Opinião

Mães mais adolescentes do que as filhas

José Alberto Quaresma
Última Atualização: 2026/Mar/Ter
José Alberto Quaresma
7 meses atrás
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Ninguém embasbacou com a notícia da mãe americana que se inscreveu, com o nome da filha de 15 anos, para participar nos treinos da claque de uma escola em Green Bay, no Wisconsin, e tornar-se “cheerleader” (elemento de uma equipa de animação de claques). Acusada de “roubo de identidade” confessou à polícia que não tinha tido infância, nem tempo para acabar a escola.

Não sei quantas mães existem no nosso país, com reveses destes: escassa escola e parca infância. Muitas. Portugal é o segundo país europeu com mais mães adolescentes. As que são. As que se fazem, fora da idade.

Não temos “cheerleaders” na nossa cultura desportiva. Mas somos leaders em mães serôdias, quarentonas que continuam adolescentes, pelo menos nas cabeças vagas e ornadas, no trajar pueril a espartilhar ádipe e a acanhar varizes.

Há mães que nunca deixam a adolescência. Ou a ela decidem regressar, depois uma má experiência pelas terras do conúbio. Não são apenas as que se amancebaram cedo e tarde se arrependeram. Desatam a abrir para apresar a juvenilidade perdida. Querem ser mais adolescentes do que as próprias filhas. Mais ousadas. Não passam do que irremovivelmente estão. Mais usadas.

Numa discoteca, uma filha resistia à mãe a bambolear-se com espavento, entre um bando de adolescentes que media timidezes. A mãe chamava-a para a pista. Tentava instilar-lhe atrevimento, em gesticulado insinuante. A filha sacudia-a em sonoros: “não sejas ridícula!”

Apesar da idade respeitável, algumas mães parecem esperar não a menopausa mas a menarca, a primeira menstruação. À força de muita concentração mental conseguem. A última.

Basta olhar com atenção. Não nas clínicas de cirurgia estética onde se fazem implantes de silicone, aplicação de botox, ou lipoaspiração. Coisas de poucas. De não poucas posses. A aspiração destas mães, verdadeiras menarcas, perdão, monarcas do reino do devaneio, não é a aspiração de lípidos. É aspiração a “top model”. Não chegam a “top”. Ficam “down”. Mas tentam que as filhas lá subam. Espevitam-nas. Vão a castings, tensas aglomerações de castas – mães imberbes e filhas recém-renascidas – à coca de uma oportunidade na moda ou no espectáculo. A oportuna idade não perdoa. O espelho, lá em casa, mentia. Mãe e filha regressam ao lar. Mais pobres. Ilusões destroçadas.

A segurança social devia disponibilizar apoio psicológico a estas mães. As portuguesas não roubam identidades como aquela mãe americana. Têm até identidades a mais. Muitas afinidades com as heroínas das telenovelas da TVI.

A afinidade é a verdadeira identidade. Não se rouba. Adquire-se no fundo da noite. Entre sonhos tresmalhados. Que não morrem na luz do dia.

 

José Alberto Quaresma

  1. 10. 2008

 

 

 

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PorJosé Alberto Quaresma
José Alberto (de Oliveira) Quaresma nasceu em Portimão. Licenciou-se em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Prosseguiu estudos em História Moderna e Contemporânea, na Universidade de Paris- Sorbonne (Paris IV), com Pierre Chaunu e André Corvisier e em História das Mentalidades Religiosas, no Collège de France, com Jean Delumeau. Foi docente do ensino secundário e formador de professores. Publicou artigos em revistas científicas e apresentou em vários fóruns comunicações sobre História, História das Mentalidades, Sociedade e Sistema Educativo. Tem, como colunista, colaboração dispersa por vários periódicos, nomeadamente, O Independente, Público, Expresso, Correio da Manhã, Domingo Magazine. Obteve o Prémio Revelação de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores (1989), pelo livro A Pose Extática, (Afrontamento). Publicou Ecolalia, poesia (Vega) e, na mesma editora, Direito ao Erro – A Batalha da Educação em Portugal. Foi autor de «Falta de Castigo – O Blogue da Educação e da Falta Dela», no semanário Expresso, entre 2008 e 2014. Coordenou as Comemorações do 122º Aniversário do Nascimento de Manuel Teixeira Gomes (1982-1983). Foi comissário para as Comemorações Nacionais dos 150 Anos de Manuel Teixeira Gomes (2010). É autor de Manuel Teixeira Gomes – Biografia (Imprensa Nacional – Casa da Moeda / Museu da Presidência da República
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