Ninguém embasbacou com a notícia da mãe americana que se inscreveu, com o nome da filha de 15 anos, para participar nos treinos da claque de uma escola em Green Bay, no Wisconsin, e tornar-se “cheerleader” (elemento de uma equipa de animação de claques). Acusada de “roubo de identidade” confessou à polícia que não tinha tido infância, nem tempo para acabar a escola.
Não sei quantas mães existem no nosso país, com reveses destes: escassa escola e parca infância. Muitas. Portugal é o segundo país europeu com mais mães adolescentes. As que são. As que se fazem, fora da idade.
Não temos “cheerleaders” na nossa cultura desportiva. Mas somos leaders em mães serôdias, quarentonas que continuam adolescentes, pelo menos nas cabeças vagas e ornadas, no trajar pueril a espartilhar ádipe e a acanhar varizes.
Há mães que nunca deixam a adolescência. Ou a ela decidem regressar, depois uma má experiência pelas terras do conúbio. Não são apenas as que se amancebaram cedo e tarde se arrependeram. Desatam a abrir para apresar a juvenilidade perdida. Querem ser mais adolescentes do que as próprias filhas. Mais ousadas. Não passam do que irremovivelmente estão. Mais usadas.
Numa discoteca, uma filha resistia à mãe a bambolear-se com espavento, entre um bando de adolescentes que media timidezes. A mãe chamava-a para a pista. Tentava instilar-lhe atrevimento, em gesticulado insinuante. A filha sacudia-a em sonoros: “não sejas ridícula!”
Apesar da idade respeitável, algumas mães parecem esperar não a menopausa mas a menarca, a primeira menstruação. À força de muita concentração mental conseguem. A última.
Basta olhar com atenção. Não nas clínicas de cirurgia estética onde se fazem implantes de silicone, aplicação de botox, ou lipoaspiração. Coisas de poucas. De não poucas posses. A aspiração destas mães, verdadeiras menarcas, perdão, monarcas do reino do devaneio, não é a aspiração de lípidos. É aspiração a “top model”. Não chegam a “top”. Ficam “down”. Mas tentam que as filhas lá subam. Espevitam-nas. Vão a castings, tensas aglomerações de castas – mães imberbes e filhas recém-renascidas – à coca de uma oportunidade na moda ou no espectáculo. A oportuna idade não perdoa. O espelho, lá em casa, mentia. Mãe e filha regressam ao lar. Mais pobres. Ilusões destroçadas.
A segurança social devia disponibilizar apoio psicológico a estas mães. As portuguesas não roubam identidades como aquela mãe americana. Têm até identidades a mais. Muitas afinidades com as heroínas das telenovelas da TVI.
A afinidade é a verdadeira identidade. Não se rouba. Adquire-se no fundo da noite. Entre sonhos tresmalhados. Que não morrem na luz do dia.
José Alberto Quaresma
- 10. 2008







