A pessoa que amo é viúva. Companheira de um amigo íntimo da família, um pouco mais velho. Ele partiu cedo demais.
Ela refez a sua vida. Nunca ousou pecar com ele. Nem mais ninguém. Foi-lhe fiel. Acabou por adotar um filho. Foi uma pequena pecha de mãe ingrata. O olhar angustiado do filho na fotografia denota o que sentia. Escapuliu-se-lhe dos braços. Desapareceu-lhe sem se dar conta.
A viúva não tinha instinto maternal. Porventura traumatizada, não podia ter filhos naturais. A família, para evitar incómodos, mandou extrair-lhe os ovários. Infértil naquele dia, infértil para sempre.
Apesar de tudo, é boa pessoa mesmo. Uma outra, que habita na mesma casa, não desconfia. Confia que não pecará comigo. Também é boa pessoa. Só disfarça mal a ciumeira. Finge que nada vê. Não se importa. Nem eu.
A viuvinha passa os dias comigo. Desarruma-me a secretária. Senta-se ao meu colo. Lixa-me as mãos com a sua língua de cimalha de ferro. Oleia-me os cabelos de cinza. Larga-me pelagem pela roupa, colcha, chão, escadas. Por onde passa, segue livre e formosa. Segura de si, assustada com estranhos. Nunca saiu à rua. O perigo espreita.
Tolera o rato que afago na mão direita. Não o afugenta. Tenta vergar o teclado aos seus caprichos. Emenda o que escrevo. Ontem, entre dois parágrafos, inseriu mais de cinquenta páginas em branco. Não me explicou o que pretendia que lá registasse. Faz-me cometer erros. Tenho de os corrigir com pouca ciência e muita paciência.

Amo esta pessoa, não cesso de o repetir contra mim. É pessoa mesmo. É melhor do que muitas que conheço. Nada reclama. Dá-se. Não esconde afetos. Não se zanga quando a minha atenção se perde no labirinto das dúvidas.
É quase perfeita. Só não dispensa comidinha da boa, água fresca, areal limpo todos os dias. Sim, o areal que visita para aliviar os restos do que come e bebe. E gosta de submeter os condóminos à sua autoridade. Faz patinagem artística sobre os tapetes da sala. Ignora o que é um estado de direito com separação de poderes. Gosta de se governar em estado de sítio. Os outros condóminos que se amanhem.
No mais, tolera quase tudo. Não é vil com outras pessoas. Não acusa. Não espuma ódio.
Nunca foi descriminada pelo seu companheiro de sempre. Sabia que nascera na rua. Não se intimidou por ele ser de raça pura e ter imigrado dos bosques da Noruega. Senhora de si, exibe sempre uma altivez macia. Parece felina. É.
Já me esquecia de um pequeno senão. Quando lhe expresso o meu amor desbordante, perde a paciência. Irrita-se. Não gosta de ser estrafegada. Não vai à manicure por unhitas de gel bicudas. Afia-as na minha mão. Deixa um tracejado de sangue vivo nos refegos. Dói.
Haverá amor verdadeiro que não doa? Eu e a viúva do D. Sonso mirramos um com o outro. Ela vai ficando velhinha. Dormita muito mais. Passa horas a fio nos fios que se baralham nos sonhos. Começo a sentir medo de que nunca acorde.
Sei que um dia nos separaremos. Não quero ser eu a enfrentar o seu silêncio derradeiro. O último e débil miado, meu ou dela, Deus o decidirá.
Para outros que não conhecem D. Pepsi, apesar de rafeira, gente não é. Apenas um animal. Desenganem-se. Quem não gosta de uma companhia independente e dedicada não pode amar outras pessoas.
Os seres que se julgam superiores têm dificuldade em esconder a própria fraqueza. Os que ficam na companhia de todas as pessoas que não olham os outros de cima para baixo têm mais força. Como se fossem bebés pequeninos enrijecendo as perninhas para conseguir caminhar seguros sobre o areal limpo do mundo.


