Tatuei-me! Tenho o direito de ilustrar o meu próprio corpo. Não quero ser menos ilustre e ilustrado do que os milhões de portugueses, homens, mulheres e adolescentes, que o fazem com elevada sensibilidade artística. Não resisti ao apelo da moda e do bom gosto. A moda manda. O bom gosto obedece.
Era o que faltava! Tinha um descampado enorme no corpo, com muita pele esticada e flácida. Era o espaço ideal para tatuar uma floresta gigante de arte profundamente original.
Só agora? Mais vale à tarde do que nunca. De manhã, acordava sempre estremunhado, remeloso, não tatuado. Tinha de me apresentar melhor quando me visse ao espelho. Estou a começar a melhorar a minha imagem.
Achei que era o tempo perfeito para um artista de categoria me tatuar. O torturador, perdão, o tatuador, já me inflige os primores da sua arte, esteticamente insuperável. Tudo com infinita paciência, em sevícias, perdão, em picadinhas de agulha, demoradas e belas, antes que me arrependa.
Descansem. Não me arrependerei. Seria estúpido e muito caro. Não teria garantia de que as imagens desaparecessem completamente do meu corpinho gentil. É uma sensação maravilhosa, ser penetrado pela agulha fina do tatuador.
Estendido na marquesa, fui sentindo um misto de gozo e dor, com a música celestial do berbequim a envolver-me a atmosfera acolhedora do gabinete asséptico. Ui! Ãi! Uu!, Ahaaaa…!
Engoli a dor e o prazer em espasmos contidos. Queria mais. Tenho muito território para embelezar. Ancas e glúteos, duas pernas, dois braços, duas mãos, vinte dedos, um pescoço, um rosto já escavadelas naturais da velhice. E testa, nariz, orelhas, sobrancelhas e o mais que só a intimidade revelará. Não o mostrarei.
Até na esclerótica branca dos olhos mandarei gravar pequenas imagens de sonho. Admiro o «eyeball tattoo» ou «scleraltattoo». Irei ao Brasil pedir ao Musquito, um génio desta arte subtil que tem todo corpo e rosto tatuados, para me fazer a obra de arte, olhos nos olhos.
Musquito é um dos maiores especialistas da arte de dar seringadelas nos olhos. Durante dois dias, ficarei a verter lágrimas de tinta, mas estou-me nas tintas. A esclerótica pode ficar cinzenta. E deixar de ver um chavelho à frente do nariz ou ao longe. São as tintas do ofício.
O maior prazer não é quando o tatuador me roça o seu corpo pelo meu para fazer o trabalho. Só virá depois, sobretudo na praia, quando os felizes tatuados me olharem com inveja. Uma tatuagem solitária é melhor que uma bicha solitária, escondida no delgado. Mas pede companhia.
Lá irei, a seu tempo, vangloriar-me das mil outras tatuagens que pretendo fazer. A primeira é que a custa mais. As seguintes não menos. Só custam centenas ou milhares de oiros. A pensão de sobrevivência não chegará para os meus caprichos artísticos. Não acho bem.
Quando desfilar na Praia da Rocha, e olharem para mim, como espero e mereço, logo verão. No inverno, descerei à praia vestido. Não saberão o que escondo. Paciência.
Há mais de dois mil anos, gregos e romanos usavam tatuagens para decorar perpetuamente escravos, criminosos, prisioneiros de guerra. Os traficantes de escravos portugueses, tatuavam-se para ganhar a confiança das tribos africanas e fazer o seu negócio de milhões. Milhões foram assim arrancados às suas terras, embarcados à força para o Brasil e a América.
A viagem durava dois meses. Era um pouco desconfortável. Deitados, amarrados, apertadinhos uns contra os outros, seguiam no convés dos barcos a receber bagas de chuva ou de água salgada. Os que adoeciam ou morriam não chegavam a terra. Eram jogados ao mar, para sossego das suas almas e prazer dos tubarões.
Os tubarões que ficavam em terra, com os lucros da mercadoria, não passavam fome. Engordavam.
As tatuagens não eram tão belas como as que ostentam amigas e amigos hoje. Gosto de vê-las, serigaitas, sorriso largo entre orelhas virgens espetadas por piercings. E eles, bons machos, também admiro os seus esbeltos pescoços, braços e antebraços belamente decorados.
Há quem compare a tortura das tatuagens e piercings à violência sexual ou à violência doméstica, os maiores crimes praticados em Portugal, contra mulheres e crianças indefesas.
A primeira, apesar de praticada por centenas de milhões de humanos, não é crime. É gozo. Ninguém ficaria à espera que um praça da GNR tatuado andasse atrás dos artistas que a praticam e dos clientes que lhes alimentam a arte.
A segunda – a violência doméstica – porque não consentida, é tenebrosa e poucos a combatem com eficácia. Está tatuada na mentalidade. Tem séculos de existência. Não será fácil apagá-la. Nem usando um sopilho dentro das monas dos homens.
Ao «Me Too», que felizmente existe, prefiro o «Me Tattoo». Não tenho coragem, para dar uns tabefes na minha filha, embora ela mos peça. Prefiro obrigá-la a tatuar-se, coisa que rejeita. Tentarei convencê-la em conversa de cerzideira, com agulha de aço na mão.
Sou militante do «Me Tattoo». Auto-convenci-me. Presunção e água asséptica toma-as quem quer. Eu quero.
As preciosas imagens que vivem em mim não desaparecerão com o duche mensal. Ilustrado para sempre. Ilustre, se Deus quiser. Para sempre, é uma força de expressão artística. As minhocas da terra ou a fogueira do crematório estarão à minha espera. Tudo se esvai. Mesmo para os que não se esvaíram na marquesa, contorcidos de prazer.
«Me too» é necessário para ajudar a combater o fenómeno da violência contra as mulheres. Me tatoo para os que têm corpinhos sem arte se ilustrarem.
Nesta estou, também. Não quero ficar fora do meu tempo. Não sou menos do que os outros, em todo o mundo, no Algarve e na Coca Maravilhas. Começo a deliciar-me a contemplar a arte definitiva que me enfeita.
Um conselho aos indecisos – primeiro tente, depois ostente!



