Começámos a contar o tempo para iludir a morte.
Inventámos datas circulares para a amansarmos. Abjuramos para longe o seu deparo inevitável.
Enchemos de festas o calendário. As nossas, as de outros. Sobre elas apomos o riso e o desejo. Com elas contamos apagar angústias e revezes corpóreos da sorte.
Fazemos votos. Tentamos arrestar futuros para a nossa beira. Com as nossas mãos confecionamos, a contento, pequenas linhas de vida.
Resignamo-nos muito. Os dias trocam-nos as voltas. Delas aproveitamos os seus detritos menos surrados.
Contentamo-nos com pouco do muito que julgámos nosso. Ainda assim impedimo-nos de tocar os adejos de fortuna que nos surpreendem caídos do acaso. Passam-nos perto e, distraídos com mágoas, fechamos o coração à devassa da solidão que cultiváramos com vil entono.
Ermamos a vida das alegrias julgadas impuras porque o corpo vai sempre adiante invadindo os repartimentos escusos da alma.
E, quando enfrentamos o vazio, já não temos tempo para fazer demorar entre nós todas as promessas que serão jubiladas por incumprimento.
Até um rosto se dissipa antes do nosso quando os outros já se encostaram ao fundo do tempo, do nosso tempo. Merecemos o fim e o olvido. E as vidas irrealizáveis que cremos em vida.
José Alberto Quaresma
2005





