Há 101 anos, na véspera de Natal, pelas 2 horas da tarde, realizou-se a Festa da Família do Jardim-Escola João de Deus, em Lisboa. O convite ao Presidente da República, Manuel Teixeira Gomes, foi desenhado com esmero e carinho. A capa original, com o programa nas duas páginas interiores, era sugestiva.
Uma criança a pendurar na árvore natalícia a última prenda. Um cestinho com o A, a primeira vogal. A ‘Cartilha Maternal’, o método que João de Deus criou para aprender a ler e escrever sem dificuldade, já se expandia por todo o país, Angola e Brasil.
O presidente, que em criança tinha andado ao colo de João de Deus, fez uma oferta generosa. Contribuiu para o sucesso da festa. E engrossou, um pouco, os carenciados cofres da Associação de Escolas pelo Método João de Deus.
Crianças e pais assistiram a uma festa de Natal. No programa, a ilustre escritora, Ex.ª Senhora D. Emília de Sousa Costa, abriu as amabilidades com uma conferência sobre «O Poeta do Amor». Foi entusiasticamente aplaudida. Uns alcançaram o que a oradora dizia. Meninas e meninos distraíram-se um pouco. D. Emília falava, sobretudo, para os olhos menos irrequietos dos adultos.
Seguiram-se cantos e danças infantis. Nem todos acertaram no compasso, mas o espírito natalício a todos cobriu com o seu divino. As crianças nervosinhas receberam muitos brinquedos. Uma quermesse angariou fundos para a Associação. A viúva, Guilhermina das Mercês, governava com semblante austero mas meigo a obra, criada pelo seu marido e o genro, Casimiro Freire, em 1882.A festa foi abrilhantada por um sexteto de músicos do Asilo António Feliciano de Castilho, instituição para crianças invisuais.
Não foi possível ainda apurar se o Presidente assistiu a algum momento dos festejos. A sua agenda atrapalhava-lhe as horas. Um dia antes, fora entregar em mãos um donativo à «Cruzada da Proteção à Orfandade Feminina».
O apoio aos mais desfavorecidos sempre foi uma das suas maiores preocupações. Admirava o talento, o humor, a bondade e o despojamento de João de Deus.
João de Deus não podia estar presente na Festa da Família. Secava há vinte e oito anos no Mosteiro dos Jerónimos. As Obras de S. Engrácia nunca mais acabavam. Só em 1967, João de Deus lá descansou os ossos, aquando da inauguração do Panteão Nacional, por S. Exª o Presidente do Conselho, Senhor Doutor António de Oliveira Salazar.
No Forte de Santo António da Barra, no Estoril, no ano seguinte, Salazar ficou apatetado. Todos à sua volta fingiam que cumpriam as suas ordens e bajulavam o senhor todo poderoso a governar o país com voz chocha e mão de ferro. Foi Marcelo Caetano que o fez, com mão mais murcha, até à manhã libertadora de 25 de Abril de 1974.
A morte tinha visitado Salazar, em1970, aos 79 anos de idade. No Mosteiro dos Jerónimos, o Cardeal Cerejeira, Patriarca de Lisboa, besuntou de encómios beatos a face lívida do ditador.
João de Deus já aqui não estava. Tinha tido a sua homenagem no leito de morte, em 1896, quando o Cardeal Patriarca de Lisboa, o seu primo D. José III, o foi visitar a casa.
Desculpar-me-ão estas revelações inéditas da Festa da Família, de 1924 e a ligação de João de Deus a Salazar. Nunca se conheceram. O ditador tinha apenas seis anos quando João de Deus morreu. Ambos passaram pelo Panteão Nacional. Salazar apenas para o inaugurar. João de Deus para lá ficar a cismar no mármore, na boa companhia de Almeida Garret, Guerra Junqueiro e Amália Rodrigues.
João de Deus não gostava de fados, que se cantavam em casas esconsas, frequentadas por marujos de mau porte ou aristocratas embuçados. Mudaria de opinião, ou preconceito, se pudesse ouvir a voz celestial da Amália a cantar poemas de Camões, David Mourão-Ferreira ou da própria Amália, vestidos de melodias tocantes de Alain Oulman e outros compositores.
Em 2030,os duzentos anos de João de Deus irão sorrir-nos. Merecem festa farta. Muito gostaria que Deus, não o João, me deixasse ir a Messines presenciá-las. E, quiçá, cantar de voz roufenha melodias minhas sobre poemas de João de Deus.
Se lá chegar, sei que me perdoará por ousar cotejar as minhas com as suas músicas que se perdera para sempre nas vielas da boémia coimbrã. E por João de Deus continuar a ser, para mim, umas Fontes da Matosa, perdão, Fontes da Inspiração…









