A velhice traz destas coisas, dores, tonturas e outras estados incomuns, mas também sabedoria na identificação de padrões. Quando fico adoentado com sintomas febris ou com tosse ou rouquidão, ou quando me dói o braço, a perna e a zona lombar e parece um princípio de dor ciática, a primeira tentativa é recorrer a algum daqueles medicamentos que temos por casa ou que vamos, de forma rápida, adquirir na farmácia. Tomamos o xarope, colocamos a pomada, ingerimos alguns comprimidos de pequenas dosagens e, em regra, não pioramos, mas também não ficamos significativamente recuperados.
É nessa altura, após a desilusão medicamentosa, que recorro ao médico. O médico passa-me aqueles medicamentos vendidos obrigatoriamente com receita médica e, passados alguns dias, a recuperação começa a se instalar e eu começo a acreditar que, por agora, a minha saúde será restabelecida. O padrão de adoentado, farmácia, remédio, médico, fármaco, restabelecido, começa a fazer sentido aos sessenta e três anos de idade.
Portanto, o melhor será, como diz o povo, para grandes males, grandes remédios, e, neste caso, o melhor é saltar logo para o médico e para o fármaco. Sem desvalorizar o papel profissional e de proximidade diária dos farmacêuticos e das farmácias, começo, idealmente, a recorrer ao médico e aos fármacos (naturalmente adquiridos na farmácia) com maiores dosagens e maior combate ao inimigo. Contar com os profissionais é fundamental, na saúde, na educação, na cultura, no desporto, na sociedade, na vida.
Por falar em cultura, relacionada com as artes, senti um crescente desencanto na voz embargada de Carlos Matos, na última Assembleia Municipal, a propósito da recuperação, eternamente adiada, do Cine Teatro Silvense, do qual é acionista maioritário. Não é possível olhar para este edifício como uma qualquer edificação da cidade, pois nele residem memórias felizes, tristes e significativas para várias gerações de silvenses. Duas memórias, para mim, fundamentais, de entre milhentas, são a exibição de um filme sobre o filósofo italiano Giordano Bruno (filme de 1973, com a direção de Giuliano Montaldo), num contexto escolar, quando frequentava o 11.º ano (provavelmente em 1980), e o insólito de uma peça de teatro, pouco tempo após o 25 de abril, com a casa abarrotando, que me ocorre com o título Computa, Computador, Computa (escrita pelo dramaturgo brasileiro Millôr Fernandes, em 1972).
Existem, em Silves, o Teatro Mascarenhas Gregório, com uma programação deficiente e bastante esporádica; a Biblioteca Municipal, com uma programação pouco comunicada; e a Casa da Cultura Islâmica e Mediterrânica com uma programação inexistente. A prioridade dada à recuperação de um espaço cultural dedicado ao cinema e outros eventos sociais, acarinhados por diferentes gerações, será sempre uma mais-valia para Silves.
De resto, a Anita nunca foi ao cinema (não existe nenhum livro com este título).


