Às vezes sou atraído para um livro pelo seu título (ou pela sua capa), como foi o caso do «Ontem não te vi em Babilónia», de António Lobo Antunes (1942-2026). Estava na FNAC do Algarve Shopping (um lugar usual de compras) e o livro, no escaparate, agitou-se (alguns livros saltam-nos para as mãos) e apelou à minha atenção (que maravilhoso título). Folheei as primeiras páginas e encontrei uma entrada que me cativou ontem não te vi em Babilónia (em escrita cuneiforme num fragmento de argila, 3000 anos a. C.).
Compro alguns livros por causa do autor, porque foram premiados, pelo título ou pela sinopse, ou ainda pela capa. Gosto de livros com uma letra de fácil leitura e detesto aquelas edições de bolso, de letra miudinha. Sou atraído por livros que, provavelmente, nunca irei ler. Comecei a ler a primeira página e fiquei confuso, pela multiplicidade de pensamentos que vão acontecendo ao longo do texto narrativo. Tenho dificuldade em ler este escritor, de acompanhar o percurso narrativo, entrelaçado com pensamentos e sentimentos. A leitura deste autor leva-me a divagar e a relembrar episódios, por mim vividos, que, ao percorrer os parágrafos, me deixam perdido, sem saber se leio ou se revivo.
Acabei por comprar o livro. O espaço dos não lidos provisoriamente cresceu.
Um dia deste, talvez tente ler (ainda não posso dizer reler) Lobo Antunes. Há tempos próprios para a leitura e para a pré-disposição para a leitura. Quando o novo edifício da Biblioteca Municipal de Silves foi inaugurado (23 de abril de 2008), com a presença do escritor, tive oportunidade de manifestar esta minha dificuldade de leitura ao próprio, durante aquela típica fila em que vamos solicitar um autógrafo num livro já adquirido (ou adquirido na hora) e, geralmente, ainda não lido:
Eu: – Tenho dificuldade em entender a sua escrita.
Escritor: – Não tente entender, apenas leia.
É um bom conselho que me reporta para o escrito na sala principal da Biblioteca Municipal de Silves. Do excerto, ficou-me … o poço aberto como a boca de um doente falando vozes esquecidas, … não sei porquê, mas única imagem dessa inauguração é o poço aberto e o diálogo minimalista com o escritor. Aliás, naquele tempo, não compreendi (nem compreendo) o porquê da deferência da edil social-democrata da autarquia silvense ao Lobo Antunes para a atribuição do nome do escritor à principal sala da Biblioteca Municipal. Que seja do meu conhecimento, não existia qualquer ligação do escritor como concelho de Silves.






