O nevoeiro é um fenómeno atmosférico em que o ar fica repleto de minúsculas gotículas de água, suspensas junto ao solo, reduzindo drasticamente a visibilidade. Instala-se uma atmosfera esbranquiçada, gerando uma espécie de cegueira branca, que nos isola do mundo e dos outros, como se fosse a alma da paisagem.
Quando ficamos presos num nevoeiro denso, não existe antevisão nem retrovisão: o passado e o futuro esbatem-se, e somos, por momentos, apagados da linha do tempo, reforçando a sensação de desorientação.
É neste estado de desnorteio que caracterizo alguns dos comentários existentes nas publicações das redes sociais a propósito de qualquer assunto, e em particular nos temas ligados a atividades, eventos ou outras matérias de âmbito municipal.
Nas redes sociais, o nevoeiro instala-se diariamente. Surgem sombras sem rosto, dispersas como borrifos, que emitem opiniões maledicentes em qualquer lugar e a propósito de quase tudo, frequentemente acerca de assuntos díspares, que nada acrescentam à necessária e saudável discussão sobre a matéria em exposição.
Alguns comentários — por exemplo, sobre a apresentação de um livro na biblioteca municipal, a crise nos bombeiros voluntários ou a inundação da baixa da cidade — revelam, acima de tudo, uma incapacidade de reflexão e de contextualização.
Permanece, na minha convicção, que aquilo que é visível, apesar do nevoeiro, pode não ser verdadeiramente claro para quem tem a tentação de reagir de imediato à frase isolada, ao excerto ou ao título, ignorando o todo. O primor da ética, baseada na verdade documentada dos factos, foi esquecido na infinidade assustadora deste nevoeiro.
O problema é que este nevoeiro gera o esquecimento genuíno e uma miopia temporal que vai alastrando pela sociedade, minando a memória coletiva de um povo. O passado perde profundidade por ausência de retrovisão histórica, mesmo quando já fomos resilientes em circunstâncias similares. Lembro-me de a cidade enfrentar grandes cheias com a normalidade possível e com a resiliência dos habitantes e dos comerciantes da zona ribeirinha e o apoio dos bombeiros voluntários.
Ainda assim, apesar deste nevoeiro climático — quase permanente nas redes sociais —, o verdadeiro nevoeiro social não destrói os factos: apenas ficam diluídos e desfocados. Os factos que um dia serão resgatados pela memória coletiva, desnudando o nosso passado e projetando o futuro que idealizamos.







