“Encruzilhada” poderia muito bem ser o título de uma série da Netflix. Um drama político que acompanha a governação de um país chamado Portugal, onde, no último episódio da temporada anterior, o público é surpreendido por uma súbita demissão do Primeiro-Ministro que usufruía de uma maioria absoluta e que, após ter passado incólume por numerosos casos e polémicas que resultaram em mais de uma dezena de demissões de Ministros e secretários de Estado num curto espaço de tempo, sucumbe devido a uma série de buscas na residência oficial e à sucessão de notícias que davam conta da presença de dezenas de milhares de euros escondidos no interior de livros presentes no gabinete do seu braço-direito, e a um parágrafo da Procuradoria Geral da República dando conta que estaria a ser investigado.
Mergulhado numa nova crise política, o país e os partidos preparam-se para as eleições agendadas pelo Presidente da República para o dia 10 de Março de 2024 onde, até ao momento, com excepção do PAN, do Livre e do Chega, todos os restantes partidos com deputados eleitos apresentam caras novas. Pelo partido que suportava o Governo, o PS, foi eleito um novo Secretário Geral e candidato a Primeiro-Ministro. Um ex-ministro que integrou o Governo que caiu e esteve envolvido em casos polémicos com indemnizações milionárias e decisões intempestivas, sendo que pelo menos uma delas foi anunciada com toda a pompa e circunstância embora sem o aval do seu chefe máximo e sem informar o Presidente da República, o que lhe valeu uma reprimenda pública e um pedido de demissão aceite.
Do lado do principal partido da oposição, o PSD, surge um líder que apesar de todos os tiros nos pés dados pelo Governo ao longo dos anos, parece não conseguir tomar a dianteira e assumir-se como uma alternativa viável para resolver os problemas do país e dos portugueses. Talvez por isso, tenha optado por realizar uma coligação pré-eleitoral com um partido do centro-direita, o CDS, que tinha perdido a sua representação parlamentar nas últimas legislativas, afastando-se assim do Chega – um partido populista de direita radical ou um partido de extrema direita? – que cresceu imenso em três anos e se tornou no terceiro partido mais votado em 2022. No outro espectro político, temos o Bloco de Esquerda e o PCP que renovaram as suas lideranças e mantêm a sua linha política, após terem sido fortemente castigados nas legislativas pós geringonça. Nos antípodas, o partido Iniciativa Liberal, que atingiu os 4,9% nas legislativas de 2022 mas onde o seu novo líder, Rui Rocha, conseguiu em menos de um ano alienar quem o tinha defrontado e alcançado 48,3% na votação interna pela liderança, originando saídas, desfiliações e críticas internas.
Este é o quadro político.
Ou então, “Encruzilhada” poderia muito bem ser o título de uma série da Netflix que acompanha o drama de três cidadãos num país chamado Portugal, como é o caso da senhora Isaura (nome fictício) que se desloca a um hospital público na região de Lisboa para uma consulta de oftalmologia agendada há dois anos e que descobre, no dia da consulta, que as consultas externas estavam encerradas e que, após dois anos de espera, ainda não seria desta. Nem um telefonema ou uma mensagem recebeu para a informar de que seria escusado deslocar-se até Lisboa. Mais a sul, uma cidadã, chamemos-lhe Dona Margarida, não tem médico de família atribuído há três anos e tenta há três meses agendar uma consulta no centro de saúde sem sucesso. A Dona Margarida está prestes a desfalecer. Liga para o 112 para pedir uma ambulância e ouve do outro da linha uma voz que lhe responde: “o Algarve está impossível, não há ambulâncias no Algarve. Terá de aguardar”. Quando finalmente consegue uma ambulância que a leve até ao hospital, seguir-se-ão 14 horas de espera numa maca num corredor das urgências. E, por fim, Hélder, um jovem estudante cujo sonho é trabalhar na agência espacial europeia mas que, à semelhança de outros colegas, desde o início do ano letivo não tem professor de matemática. Conseguirá a sua escola um professor de matemática antes do final do ano lectivo?
Este é o estado dos serviços públicos.
Não sendo de excluir que das eleições de 10 de Março, não resulte uma conjuntura política que possibilite uma solução governativa estável, exige-se responsabilidade a todos. Aos políticos na seriedade das suas propostas políticas, para falar a verdade aos portugueses, apontar caminhos e políticas públicas para colocar nos eixos a justiça, a educação, a habitação, a saúde e combater a pobreza, para além de fazer o país e as empresas crescerem. Aos cidadãos para exigir muito mais da classe política e não se deixar levar pelo canto da sereia. Desse modo, talvez se consiga evitar que o país entre num ciclo de ingovernabilidade e instabilidade política.
Este é o dilema.
P.S. Votos de um Feliz e Próspero Ano Novo para os leitores, colaboradores, familiares e amigos do “Terra Ruiva”.






