Silves foi uma das raras localidades em Portugal, além de Lisboa e Porto, a participar nas primeiras celebrações internacionais do Dia do Trabalhador, em 1890. O jornal “O Protesto Operário”, de 4.5.1890, dava uma curta, mas muito significativa notícia: “Em Silves, mais de duzentos operários percorreram as ruas com uma filarmónica, aderindo assim à reclamação operária. Honra aos operários de Silves!”.
Em Maio de 1891, não terá havido festejos, pois estavam numerosos operários sem trabalho, em consequência de um violento incêndio, ocorrido em Janeiro, na fábrica Vilarinho & Sobrinho de que só então estavam a iniciar-se os trabalhos de recuperação (O Protesto Operário, 24.5.1891).
Também em 1892, a data da festa operária não foi assinalada com o devido brilho, sendo apenas conhecido um telegrama de congratulações que os corticeiros de Silves enviaram à comissão organizadora das comemorações em Lisboa (O Protesto Operário, 8.5.1892).
Já em 1893, o1.º de Maio voltou a celebrar-se como em 1890, sendo conhecidos mais pormenores de como foi organizada e decorreu a comemoração. Na semana anterior, houve reuniões preparatórias num “armazém da opulenta casa Vilarinho”. “A alvorada do 1.º de Maio foi anunciada com salvas de morteiros, saindo a filarmónica Vilarinho a tocar”, seguiu-se pelas 10 horas, um cortejo cívico a partir do cais, levando à frente a bandeira da Associação Fraternidade Operária Silvense. Os operários, desfilando em alas, “percorreram as ruas da cidade, nomeio de um entusiasmo indescritível, reinando sempre a ordem mais absoluta”. Depois, uma reunião muito participada no armazém e discursos, à tarde merendas no campo (O Protesto Operário, 7.5.1893).
Importa aqui referir que a associação “Fraternidade Operária” tinha não só sócios operários (ordinários e extraordinários), mas também sócios ditos “auxiliares” e “protectores” que eram patrões. Numa assembleia, dirigida pelo industrial António Caldas, que era também regente da filarmónica, os sócios operários apresentaram uma proposta para “exclusão dos sócios ricos” que não precisavam do auxílio da associação, antes se aproveitavam dos seus bens. A proposta não chegou a ser votada, pois o industrial encerrou a sessão da assembleia (O Protesto Operário, 9 e 16 de Julho de 1893).

Em 1894, a organização 1.º de Maio esteve a cargo da Associação de Classe da Indústria Corticeira Silvense, legalmente constituída em 1893 (estatutos publicados no Diário do Governo, 24.11.1893) e as comemorações tiveram um cariz algo diferente, mais consentâneo com o espírito da “festa operária”, como nos mostra uma colorida descrição, publicada no jornal “A Federação” (13.3.1894), e que transcrevemos, mantendo a “ortographia” da época, por ser facilmente inteligível:
SILVES — A manifestação do 1.º de Maio – cortejo— comício—doença de um orador — passeio ao campo.
Foi imponente a manifestação realisada n’esta cidade no dia 1.º de maio. Ninguém trabalhou. Os próprios industriaes não pensaram, sequer, em abrir as fábricas! Cerca das 10 horas da manhã começou a affluir grande numero de operários à porta da associação de classe, d’onde devia sair o cortejo cívico. Às 11 horas, estando reunidos cerca de 800 companheiros, chegaram a sr.ª D. Angelina Vidal, Luiz de Figueiredo e Conceição Pires, pondo-se o cortejo logo em ordem, levando à frente a bandeira da associação e assim percorreu as principaes ruas de Silves.

Durante o trajecto, foram distribuídos muitos manifestos com o titulo Aos trabalhadores do Algarve e os da União do 1.º de maio de 1894. Dirigiu-se, por fim, o cortejo para o salão destinado à escola da Cooperativa Silvense, onde se celebrou o comício, extraordinariamente concorrido por cerca de 2:000 pessoas. Tomou a presidência José Calvário, secretariado por Vicente do Carmo e José Baião. Começando os trabalhos, foi dada a palavra ao sr. Luiz de Figueiredo, que logo às primeiras syllabas mostrou estar um pouco encommodado. Talvez cançasso de ter perdido a noite no comboio. Por isso o seu discurso foi escutado por todos com uma frieza glacial. Seguiu-se a sr.ª D. Angelina Vidal, que foi recebida com uma prolongada salva de palmas; e que proferiu um discurso arrebatador, communicando grande e justificado enthusiasmo à assemblèa. Fallaram, ainda, os srs. Conceição Pires e Manuel de Jesus, que a assemblèa muito victoriou, sendo em seguida encerrada a sessão. De tarde houve um passeio ao campo. Innumeras famílias, com as suas merendas, foram pelos prados e pomares festejar o grande dia de confraternisação nacional; e assim terminou a festa dos operários, que no futuro será, também, a da sua emancipação. CORTICEIRO.
Breves notas biográficas dos participantes no comício:
– Angelina Vidal (1847-1917), Jornalista, escritora, professora, politicamente era republicana federalista, próxima do ideário socialista mais radical. Muito activa na defesa dos direitos das mulheres, foi uma notável pioneira da luta feminista.
– António Joaquim da Conceição Pires (? – 1903) – Pertencia à direcção da Federação do Sul do Partido Operário Socialista Português (POSP) e estava alinhado com a tendência “possibilista”.
– José de Oliveira Calvário, activista e dirigente do movimento associativo, na cooperativa e na associação de classe, seria na Primeira República, presidente da Junta de Paróquia. Foi o pai do militante comunista, José de Oliveira Calvário Júnior (1898-1953).
– José Gregório Baião – Um dos fundadores da Associação de Classe.
– Manuel Luiz de Figueiredo (1861-1927), tipógrafo, jornalista, dirigente do POSP e redactor principal do “Protesto Operário”. Esteve no 1º Congresso das Associações de Classe (Lisboa, 1882) e no Congresso Marxista Internacional (Paris, 1889) e seguiu a tendência “possibilista” (moderados, reformistas, críticos das greves). Nas eleições legislativas de 1894, em que a ala “marxista” do POSP não concorreu, foi candidato pelo círculo de Lisboa e obteve 84 votos em Silves (Protesto Operário, 22.4.1894).
– Vicente do Carmo – Republicano, foi fundador da Associação de Socorros Mútuos João de Deus (1903).
Observação: Sobre outras comemorações do 1.º de Maio, em Silves, vejam-se, com proveito: Vera Gonçalves, “1.º de Maio – Dia do Trabalhador”, Terra Ruiva, Maio 2018; António Guerreiro, 1924 Silves: As Vozes da Resistência, 2024.










