O mês de maio traz invariavelmente a notícia sobre a atribuição da Bandeira Azul às nossas praias. Há 40 anos que nos habituamos a vê-las flutuando e talvez já não lhes concedamos muita importância. No entanto, todos os anos, lá surge o ranking dos concelhos que têm mais bandeiras atribuídas.
Assim do género, “Albufeira é o município do Algarve com mais bandeiras azuis, tem 19!” Ao contrário, o concelho de Silves surge muito abaixo no ranking, com duas praias. Alguém pouco familiarizado com a região, pensará que “apenas” temos duas praias com qualidade. Mas, e aqui abro um parênteses, este ano, a praia emblemática de Albufeira, a Praia dos Pescadores, perdeu a bandeira azul. E Silves tem todas as suas praias – 2 – com bandeira azul.
Fechado o parênteses, vemos quão facilmente podemos chegar a conclusões falsas, comparando realidades diferentes, sem o devido enquadramento. No entanto, quantas vezes não vemos este tipo de comparação, a propósito dos mais variados temas?
Ainda a propósito deste tipo de perceções que se geram a partir de comparações estapafúrdias, li nas redes sociais uma animada discussão entre cuidadores de animais de rua. Algumas dessas pessoas, dedicadas e que muitas vezes além do seu esforço investem também o seu dinheiro para essa causa, afirmavam convictas que “o concelho de Silves é o pior”, no que respeita ao acolhimento e esterilização desses animais. Tendo nesta edição do jornal uma notícia que contradiz essa opinião, inquiri sobre as fontes / estatísticas que estavam a usar para fazer essa afirmação. Pelas respostas, verifiquei que se baseavam unicamente nas suas experiências pessoais, limitadas às freguesias onde habitam.
Mais uma vez, as perceções pessoais a serem a única fonte de informação e base de análise. Muito naturalmente conduzindo a uma conclusão errada e/ou distorcida.
Admito que é difícil, a todos nós, duvidarmos das nossas experiências e convicções. Num mundo onde as notícias falsas, as imagens geradas pela inteligência artificial, os vídeos manipulados nos tornam caminhantes desconfiados do chão que pisamos, temos tendência para nos agarrarmos com unhas e dentes às convicções pessoais que nos oferecem segurança.
A consciência de que aquilo que vemos e ouvimos não corresponde necessariamente ao mundo real, levanta questões que não tenho competência para responder. Intricadas. Complexas. Ainda em aberto…
Mas há dias, numa tertúlia em que participei, em que se falou sobre a imprensa regional e local, uma pessoa do público exprimiu uma opinião em que considerava que, nos próximos tempos, a imprensa regional e local será cada vez mais importante para que cada um de nós possa aferir da realidade do que nos é transmitido. Porque, dizia, a imprensa local escreve sobre pessoas e locais que conhecemos, acontecimentos que sabemos que aconteceram. Por exemplo, se escreverem uma notícia sobre um acidente, se calhar eu até passei por esse sítio a essa hora, ou conheço quem passou… de uma forma ou de outra, o cidadão local terá sempre forma de comprovar a notícia local.
Partilhando desta opinião, atrevo-me a dizer que os meios de comunicação social locais, próximos do seu público, terão cada vez mais responsabilidade na informação dos cidadãos e atestarão com a sua proximidade às pessoas, aos locais e à comunidade a veracidade das suas publicações. Serão assim uma ferramenta contras as mentiras e a manipulação, que contribuirá para esvaziar as perceções nascidas na ignorância ou na má fé, na repetição de opiniões de outros sem qualquer reflexão, análise ou espírito crítico.
Um caminho difícil, quando a simples sobrevivência está na ordem do dia.







