O algoritmo das redes sociais empurra-nos para conteúdos semelhantes àqueles que já vimos, comentámos ou simplesmente observámos, inundando-nos com publicações que reproduzem o mesmo tipo de pensamento ou atitude, sejam elas políticas ou de outra natureza. Se eu vou vendo, mesmo sem comentar, publicações de determinado cariz ideológico – mais ou menos extremado –, começam a surgir cada vez mais conteúdos da mesma natureza.
Nos casos em que não me identifico, de todo, com essa ideologia, parece acontecer o contrário do que seria desejável: multiplicam-se as publicações marcadas por anormalidades, seja porque difundem notícias manifestamente falsas ou truncadas, seja porque o insulto descabido se tornou a linguagem dominante, tanto das publicações como dos comentários que as acompanham. Muitos dos protagonistas desses espaços nas redes sociais são personagens vis, com as quais nada tenho em comum e das quais agradeço manter distância. Felizmente, existe sempre a possibilidade de bloquear os respetivos perfis.
Contudo, também surgem, neste fluxo incessante das redes, ideias capazes de nos fazer — ou de me fazer — refletir. Uma intervenção, ainda nos resquícios de Abril, que me apareceu por mero acaso, distinguia os primeiros momentos do 25 de Abril, enquanto golpe militar conduzido pelos capitães, dos acontecimentos posteriores, quando o povo de Lisboa — e depois o restante país — transformou esse golpe numa verdadeira revolução. Fê-lo ao exigir o desmantelamento da polícia política e a libertação de todos, mas mesmo todos, os presos políticos. Foram as forças populares que assumiram a dianteira, concentrando-se junto à sede da polícia política — cujos agentes continuavam a matar nesse mesmo dia — e às portas das prisões nos dias seguintes. A revolução foi iniciada pelos militares nos quartéis, mas concretizada pelo povo nas ruas, como aconteceu em outras revoluções portuguesas.
Tenho também acompanhado, com interesse, alguns discursos claros e assumidos, de diferente latitudes, sobre o verdadeiro posicionamento dos valores de esquerda, sem acanhamentos nem complexos.
Esta ideia de voltar a abraçar, sem receios, os princípios de uma política de esquerda — defensora da dignidade, da educação, da saúde e da habitação públicas, do acesso universal aos bens culturais e da redução das desigualdades — tem permanecido a marinar em lume brando.
Pergunto-me, por vezes, se ainda somos capazes de contribuir para essa construção coletiva iniciada em Abril. Temos de voltar a erguer a voz em defesa da esquerda, recusando que a sua defesa seja confundida com radicalismo.
Recordo que, quando era adolescente, numa época em que era habitual usar-se ao pescoço um fio de ouro com uma cruz cristã, eu trazia um fio de prata com uma chave de porcas, também ela em prata. A minha rejeição do ouro, naquele contexto, era sobretudo uma forma de questionar a norma. E a ausência da cruz não resultava tanto de uma oposição à religião, mas antes da convicção de que são as pessoas e os povos, os únicos capazes de transformar as circunstâncias das suas vidas e o rumo da história.
Estarei hoje longe desse jovem idealista ou será que ele continua à espera de ser vivido?








