Arquivos Tags: António Guerreiro

Há três noites que eu não durmo

Quando eu andava na Escola Primária, há uns cinquenta anos, nós, os rapazes, cantávamos a música tradicional do galito. «Há três noites que eu não durmo, lalá,/eu perdi o meu galito, lalá./Coitadito, lalá!/pobrezito, lalá!/Eu perdi-o no jardim./ (…)». Apesar do jardim ser perto da escola, nunca imaginei que o galito teria sido perdido naquele jardim. Até porque, o jardim era, para mim, um local de passagem e não de permanência. Por isso, a que propósito eu levaria para o jardim o meu galito? Nesse tempo do antigamente, os sábados de manhã, na escola, eram ocupados com estas músicas tradicionais e, …

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Gaitinhas

A contagem das laranjas era feita pelo Gaitinhas, que sabia os números todos até mil, segundo afiançara Sagui, o que causava a admiração dos companheiros. Esteiros (1941), Soeiro Pereira Gomes   João da Fonseca, o Gaitinhas dos Esteiros, tem 91 anos e vive num lar de idosos em Vila Franca de Xira, não muito longe de Alhandra. O senhor João da Fonseca sofre de uma das formas de demência, denominada de doença de Alzheimer. Conversa com as funcionárias da instituição de solidariedade social, com os outros utentes e com os familiares, principalmente com um neto, professor na margem sul, que …

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Abaixo a Estátua

As estátuas tentam glorificar o passado ou, pelo menos, alguns antepassados, neste eterno presente. São marcas das gerações pretéritas para as futuras procriações. Chamo estátuas às representações de alguém em concreto ou de alguém em abstrato, não estou incluindo os ícones religiosos que tradicionalmente apelidamos de santos. A interessante relação entre as imagens religiosas e a nossa representação mental e social das figuras bíblicas, nomeadamente do novo testamento, e dos santos, sejam populares ou eruditos, é, porventura, um segredo divino. Em Silves ainda existem algumas estátuas, incluindo estátuas de corpo inteiro e bustos, figurativos de uma personagem, e grupos escultórios. …

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E a Cultura

Como o tempo passa! Em 2009, em janeiro de 2009 (dois mil e nove), no tempo em que a Biblioteca Municipal de Silves ainda tinha atividades culturais, após a hora do jantar, assisti a uma conversa com a escritora Lídia Jorge sobre os livros que a tinham marcado. A escritora recordou a sua vivência de menina e moça no interior algarvio e o seu apego pelo Serviço de Bibliotecas Itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian e falou sobre um único livro (segundo a minha memória), um livro de Ernest Hemingway. Na época fiquei um pouco desiludido por não ter desfolhado um …

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Silêncios

Este silêncio, alimentado pelos sons primaveris, há muito que não era escutado nos parques e nas ruas das cidades, nomeadamente na nossa cidade, para além dos quentes domingos de verão. Bem sei que entristece ver as ruas ainda mais desertas de gentes do que na normalidade dos dias, mas em contrapartida cresce um sentimento de humanidade, em todos nós, numa conjugação entre os sons vivos da natureza (até o vento tem um som mais audível) e a presença renovada (num possível engano dos meus olhos míopes) dos seres humanos. Ao fazer pequenos percursos pela cidade, encontro gente em silêncio como …

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Aconteceu ABRIL

Nestes dias, tenho pensado sobre o reflexo dos significativos acontecimentos históricos e sociais na vida particular de cada um dos indivíduos, como seres únicos, dotados de particularidades não reveladas pela comunidade. Um só dia, com significado para uma comunidade, pode afetar para sempre a vida comunitária desse povo, mas também, de modo distinto, a vida singular de alguém, mesmo que essa influência não seja contígua, não seja consequência das imediatas horas, dos imediatos dias, dos imediatos meses. Quando eu era criança, a minha mãe, a minha avó, a minha tia avó, acreditavam que sempre houve ricos e pobres e que …

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Conquista de Alvor

Conquista de Alvor (1189) Enviou naus, velas desfraldadas. A ria transbordou de fé, de raiva e de cobiça. O medo alagou os campos e a sede incendiou os víveres. Os homens, por Ele enviados, surgiram da água, desfigurando o futuro das gentes e dos haveres. O passado, intacto no saber e no sentir, é revisitado nos momentos em que se O pressente. Os homens glorificaram-se com as ruínas, saciando-O. António Guerreiro

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Metropolitano de Silves

Nestes últimos meses, levantei-me cinco vezes, quase de madrugada, às sete da manhã, para ir para a porta do Registo Civil. A primeira vez foi para renovar o passaporte, a segunda para levantar o passaporte, a terceira foi para renovar o cartão de cidadão (ou de cidadania, para os/as mais inclusivos/inclusivas). Na quarta vez, segunda-feira de carnaval, deparei-me com a porta fechada, apesar da presença de um conjunto de resistentes, na esperança de resolverem os seus afazeres, com um anúncio de greve, em letras bem visíveis. Qual é a credibilidade do movimento sindical que só marca greves às sextas-feiras ou …

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Retratos

Habituei-me a ver na parede de casa, uma fotografia antiga da minha mãe e da minha tia Elvira, aquelas fotos só com o busto das duas mulheres, mas não tinha ideia de que a referida foto era mais velha do que eu. Nascemos no mesmo ano, mil novecentos e sessenta e dois, mas certamente em meses diferentes e ela, a fotografia, nasceu primeiro, pois eu nasci quase no final desse ano. Esta foto, de duas das irmãs, associei-a a uma outra foto, minha e do meu irmão mais velho, naturalmente mais recente, mas ainda assim bastante antiga, provavelmente eu teria …

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Laçarotes

Finda a época festiva, mas ainda a tempo de vos desejar um excelente ano de dois mil e vinte, interrogo-me sobre o valor da riqueza, particularmente sobre o índice do produto interno bruto, aquele valor que indica o quanto rico é um país. Claro que estou a reduzir um país à sua dimensão económica, o que é uma forma simplificadora de entender uma nação e um povo. A cultura, a natureza, a vida, a política, a felicidade, são outros fatores do entendimento do que é um país. Um país é uma complexidade de tudo, incluindo a economia, o social, o …

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