A imigração tornou-se um tema recorrente no debate político, nos ciclos eleitorais, nas redes sociais e na opinião pública. A imigração tem sido explorada pela extrema-direita populista e neofascista, frequentemente associada a discursos marcados pela xenofobia, pelo racismo, por nacionalismos bacocos, pela defesa da pureza étnica, pelo ódio e desinformação.
Os imigrantes são, muitas vezes, transformados em bodes expiatórios das desigualdades e injustiças geradas pelo atual modelo económico. Episódios isolados e negativos são generalizados com uma facilidade preocupante.
Esta realidade não deixa de ser paradoxal num país que conta com cerca de 1,8 milhões de emigrantes nascidos em Portugal, segundo as mais recentes estimativas das Nações Unidas. Ao longo da sua história, milhares de portugueses partiram em busca de melhores condições de vida, enfrentando enormes sacrifícios e privações. É conhecida a história dos que viveram em bairros de lata (bidonvilles) nos arredores de Paris durante as grandes vagas emigratórias das décadas de 1950, 1960 e início dos anos 1970, fugindo à pobreza e à falta de oportunidades durante o regime fascista. Por isso, é difícil compreender a hostilidade de parte dos portugueses em relação aos imigrantes.
Portugal é um país de emigrantes, uma nação que historicamente se projetou para o mundo e cuja maioria da população se identifica com valores cristãos que promovem a solidariedade, a justiça social, a dignidade humana e o respeito pelo próximo.
Os dados mais recentes do Eurostat mostram que, no início de 2024, os cidadãos estrangeiros (imigrantes e outros) representavam 9,8% da população residente em Portugal, valor praticamente idêntico à média da União Europeia, situada nos 9,6%. No final desse ano, residiam no país cerca de 1,5 milhões de cidadãos estrangeiros, sendo a comunidade brasileira a mais numerosa, com quase meio milhão de pessoas. Importa ainda sublinhar que 28,9% dos estrangeiros residentes em Portugal se encontravam em risco de pobreza ou exclusão social, uma percentagem significativamente inferior à média europeia, que ronda os 40%.
Mas a questão fundamental é outra: são os imigrantes necessários à economia portuguesa e ao desenvolvimento do país.
Do ponto de vista demográfico, a resposta parece inequívoca. Portugal regista há décadas um saldo natural negativo, ou seja, morrem mais pessoas do que aquelas que nascem. Embora as políticas de incentivo à natalidade sejam indispensáveis, os seus efeitos só se fazem sentir a longo prazo. Não é com as atuais políticas públicas neoliberais, que perpetuam a precariedade, os baixos salários e a impossibilidade de aceder à habitação em condições acessíveis, que se inverterá a situação. Não é por acaso que milhares de jovens qualificados continuam a emigrar. Neste contexto, a imigração constitui a principal forma de compensar a perda de população no curto prazo.
O caso do concelho de Silves é ilustrativo: entre 2021 e 2024, o saldo migratório positivo (+2643 pessoas) compensou o saldo natural negativo (-573), resultando num aumento da população residente de 2070 habitantes.
Ao mesmo tempo, o país enfrenta um problema estrutural de escassez de mão-de-obra em vários setores e ramos da atividade económica. Construção civil, agricultura, florestas, pescas, hotelaria, restauração, serviços de apoio social, lares, apoio domiciliário, limpeza urbana ou recolha e tratamento de resíduos, são áreas fundamentais para o funcionamento da sociedade e da economia, mas cada vez menos atrativas para os trabalhadores portugueses.
Quantas empresas ou serviços reduziriam drasticamente a sua atividade ou encerrariam sem o contributo da força de trabalho imigrante? Quantos investimentos essenciais deixariam de se concretizar? A resposta é evidente: muitos.
A sustentabilidade da Segurança Social é outro exemplo da importância da imigração. Atualmente, cerca de um em cada cinco contribuintes é imigrante. Em 2025, os trabalhadores imigrantes contribuíram com cerca de quatro mil milhões de euros para a Segurança Social, cinco vezes mais do que recebem em prestações sociais. Importa recordar que os atuais contribuintes são os que suportam o valor das reformas que hoje se pagam. Como um comentador referiu recentemente e bem, “os portugueses ou aceitam imigração ou aceitam perder reformas”.
Há ainda uma dimensão humana frequentemente esquecida. Quando muitos dos nossos pais e avós necessitarem de cuidados em lares ou apoio domiciliário, serão provavelmente trabalhadores e trabalhadoras vindos do Brasil, de África ou de outras partes do mundo que os acompanharão e cuidarão deles. Essa já é, em grande medida, a realidade de hoje. Outra das narrativas mais difundidas associa o aumento da imigração ao crescimento da criminalidade. Contudo, os dados oficiais e a investigação não confirmam essa relação.
Pelo contrário, diversos estudos demonstram que as taxas de criminalidade entre populações imigrantes tendem a ser inferiores às registadas entre a população nativa.
A dupla condição de Portugal como país de emigração e de imigração justifica acolher e integrar harmoniosamente os imigrantes na sociedade portuguesa, respeitando-os como cidadãos de corpo inteiro, com direitos e deveres, a par do combate às redes de imigração ilegal e às condições de trabalho e de alojamento, humanamente indignas.






