As eleições autárquicas, com toda a sua complexidade de relações políticas e pessoais que se entrecruzam, trazem à ribalta alguns fenómenos que, no dia a dia, vão passando meio desapercebidos. Mas que os há… há!…
Nestas eleições de outubro de 2025, em que a divulgação das mensagens e dos candidatos ganhou imensa importância nas redes sociais, reparei, de imediato, num desses “fenómenos”. Grupos do Facebook que andavam, há anos, sem administrador, inesperadamente, começaram a filtrar as publicações. E estas começaram a ficar na lista…. à espera de aprovação.
Até notícias tão inócuas, como o anúncio do dia em assembleias de freguesias tomariam posse, não passaram no crivo de alguns administradores, que alegavam não querer política naquele grupo… embora depois permitissem a publicação da vitória de um determinado candidato… como comprovei, quando fiz essa “experiência”…
Esta necessidade de controlar o que é publicado e ainda mais a sua divulgação não é de agora. Neste ano em que o Terra Ruiva faz 25 anos e que temos estado a publicar uma retrospetiva dos principais títulos de cada edição, assinalamos em novembro um triste aniversário… Em novembro de 2003, o Terra Ruiva foi alvo da maior ação de intimidação que algo vez sofreu.
O caso conta-se assim:
Em fevereiro de 2002, as obras de construção da Biblioteca Municipal de Silves foram interrompidas, devido à descoberta de importantes vestígios arqueológicos. O estudo desses vestígios entretanto, arrasta-se por vários meses, estando muitas vezes parado. A retoma das obras da biblioteca acontece apenas no dia 8 de setembro de 2023.
O problema é que, entretanto, o empreiteiro veio reclamar o pagamento de mais de 71 mil euros pelos encargos e prejuízos que teve de suportar para manter o estaleiro e uma grua, inativa, instalada no local da obra.
Esta situação chega ao conhecimento público na sessão da Assembleia Municipal de Silves, de 29 de setembro de 2003, em que o Terra Ruiva esteve presente. Um membro do PS questiona a autarquia, liderada por Isabel Soares, sobre a existência deste pedido. O que é negado pelo vice-presidente da Câmara. A mesma resposta obtêm os vereadores do PS e CDU que questionam o Executivo Permanente, em reunião de Câmara.
Perante estas respostas, o PS/Silves divulga um comunicado, denunciando que “a inatividade desta grua custa à Câmara Municipal de Silves (a todos nós) 2.850,29 euros mensais” e que “até hoje, este assunto nunca foi a reunião de Câmara nem ao conhecimento dos vereadores”. Uma alegação que o Terra Ruiva confirma junto dos mesmos.
Apesar do desmentido da autarquia, o Terra Ruiva tem acesso aos documentos que comprovam o pedido de indemnização da empresa, feito em outubro de 2022, portanto um ano antes, e decide publicar a notícia.
A reação da Câmara Municipal não se fez esperar. Além de ameaças de queixas a várias entidades, exigia que o jornal revelasse a sua fonte e a forma como obtivera os documentos. Sem nunca negar os factos que eram apresentados na notícia…
Esta atitude da Câmara Municipal foi depois, ela própria, notícia em vários órgãos de comunicação social, que destacavam o facto de uma autarquia fazer uma exigência deste género a um jornalista, claramente contra a lei que protege a identidade das fontes.
O “caso da grua” , como o Terra Ruiva lhe chamou, dispersou-se por si só. O jornal não aceitou nenhuma exigência, a autarquia não persistiu nas suas queixas.
Mas o passado, por vezes, teima em voltar. Lá e cá.
As ameaças e tentativas de controle que os media enfrentam hoje são enormes, persistentes e com uma agenda bem clara, seja qual for a dimensão e nacionalidade dos meios de comunicação. Sopram ventos do passado que nos querem fazer recuar e derrubar… Desde o presidente Trump, que só fala para quem concorda com as suas opiniões, até aos pequenos ditadorzinhos de grupos de Facebook que expulsam pessoas, (como me aconteceu há uns anos, num grande grupo de Armação de Pêra, quando publiquei a notícia da sentença proferida pelo Tribunal de Contas contra os ex-presidentes da Câmara de Silves), até aos que selecionam as notícias que eventualmente agradarão ou não a quem está transitoriamente no poder, o mundo está cheio de censores.
A nossa missão é não vergar a coluna, trabalhar para a verdade, almejar o rigor. Difícil de cumprir? Difícil. Mas contra os que querem voltar ao passado, seguir um caminho de uma só via e impor uma só forma de olhar o mundo, estaremos por aqui.







