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Editorial

Enrascados já nós estamos

Paula Bravo
Última Atualização: 2022/Fev/Sex
Paula Bravo
4 anos atrás
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“Em Portugal basta um ano de seca para o país agrícola tremer. Este ano, a situação não é exceção e o Barlavento Algarvio é um dos casos mais graves. A chuva que caiu nos últimos dias veio aliviar a pressão. Mas a água está longe de ser suficiente. (…) E pergunta-se: como podemos viver reféns dos humores climáticos?”

Esta era a abertura da reportagem principal publicada no número 0 do Terra Ruiva, no longínquo mês de Abril de 2000. Com o título “Reféns de uma seca anunciada”, o texto iniciava-se assim: “No Algarve, quando nos debruçamos sobre o problema da seca chegamos a descobertas surpreendentes. Todos os anos, em imensos locais, falta água. Em muitos mais, o abastecimento, além de irregular, é de qualidade deficiente. Um período de seca prolongado faz tremer toda a estrutura do abastecimento público. Uma imensa parte da água pública perde-se nas canalizações antigas. Apenas uma pequena parte dos furos artesianos está legalizada. Apesar de existirem estudos que apontam para uma grande riqueza de aquíferos subterrâneos, milhões de metros cúbicos escoam-se anualmente para o mar. E há mais de cinco anos que ambientalistas, autarcas e ministros esgrimem sobre as vantagens e desvantagens da construção da Barragem de Odelouca”.

Volvidas duas décadas, em fevereiro de 2022, a situação descrita continua a ser absurdamente atual. À exceção da referência à Barragem de Odelouca, que acabou por ser construída, sendo considerada uma peça essencial no abastecimento de água ao Barlavento Algarvio, todas as outras situações continuam a verificar-se.

Seria sem dúvida injusto dizer que nada tem sido feito. E igualmente injusto afirmar que a consciência para o problema da falta de água no Algarve não está desperta. Mas a realidade está aí, para nos confrontar: não tem chovido, o país está praticamente todo numa situação de seca severa e, como se perguntava  há 22 anos: “como podemos viver reféns dos humores climáticos?”

Na via paralela a esta questão surgem muitas outras. Neste Algarve de sequeiro como são reis os citrinos, os abacates e os frutos vermelhos? Neste Algarve onde falta a água como se reproduzem em todos os cantos campos de golfe, empreendimentos turísticos para milhares de pessoas, relvados imensos, jardins luxuriantes? Neste Algarve onde não chove  como se estima que haja perdas anuais de água na ordem dos cinco milhões de metros cúbicos no perímetro de rega de Silves, Lagoa e Portimão e de cerca de dois milhões no de Alvor, como disse há dias o responsável da Direção Regional da Agricultura? E onde estão as prometidas medidas impactantes que promovam a redução dos consumos e os gastos racionais? É certo que a AMAL, ou seja, os municípios do Algarve, tem-se mostrado atenta e preocupada com a questão da falta de água e existem vários projetos, incluindo o da construção de uma central de dessalinização, mas no terreno tardam as concretizações. E, sejamos sinceros, a maioria dos consumidores continua a gastar água da forma como sempre o fez, apesar de estar consciente da situação e de ter tomado conhecimento de várias campanhas de sensibilização.

Neste país que, em tantos assuntos fundamentais, parece andar à toa, há contradições de todos os tipos. Um exemplo retirado das páginas desta edição. Por um lado a notícia do sistema inovador que a Câmara de Silves adquiriu para a rega dos espaços verdes, com o objetivo de poupar água. Por outro lado, a notícia do empreendimento turístico que se pretende instalar no nosso território, requerendo abastecimento de água para alguns milhares de pessoas em simultâneo a acrescentar à água necessária para jardins, campo de golfe, piscinas… Enquanto isto, já se ouve falar em “condicionamentos” na distribuição de água para a agricultura do concelho…

A necessidade de responder a solicitações cada vez maiores da parte do turismo e da agricultura, a par dos consumos crescentes da rede de abastecimento público e ao mesmo tempo a implementação de medidas enérgicas de racionalização do gasto de água obrigará dirigentes e cidadãos a um esforço poderoso de conciliação de diversos interesses, que não obstante as dificuldades terá de surgir. Até porque, de acordo com as diversas projeções climáticas, o Algarve será tendencialmente uma região cada vez mais seca e árida.

Não nos resta, pois, outra opção, a não ser prepararmo-nos para o futuro. Até porque, no presente, já estamos “enrascados”.

 

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PorPaula Bravo
Natural de S. Bartolomeu de Messines, nascida em 1963. Licenciada em Comunicação Social. Desde 1986, trabalhou em vários órgãos de comunicação nacionais e regionais. Dirigente associativa. Fundadora e diretora do Terra Ruiva desde abril de 2000.
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