O diagnóstico é de todos conhecido: um milhão e meio de portugueses sem médico de família, dificuldade de acesso a consultas, ausência de especialistas, instalações deficientes.
Em outubro de 2025, um estudo da Associação Nacional das USF (Unidades de Saúde Familiar) concretizou este diagnóstico: 9 em cada 10 centros de saúde acusavam falta de material básico; apenas 7,6 % faziam análises básicas; 44% tinham instalações desadequadas; 49% sofriam com deficiências na climatização; em 27% havia problemas com a limpeza; 58,2% não dispunham de material para vídeoconsulta. Um grande número não atendia os telefones aos utentes e raramente respondia ao correio eletrónico.
Além de tudo isto, a maior parte não atende em caso de doença aguda, encaminhando os utentes para a linha SNS 24. E como o poderiam fazer, se faltam médicos de medicina familiar, especialistas, enfermeiros, pessoal auxiliar, administrativos?
Entretanto, ao abrigo do Programa de Recuperação e Resiliência – PRR, surgiram verbas para a requalificação dos centros de saúde. No caso do nosso concelho, as obras previstas irão beneficiar todas as extensões de saúde e o Centro de Saúde de Silves. (Em Alcantarilha, as obras já começaram.)
Eis que recentemente o Governo abriu concursos para a construção de Unidades de Saúde Familiar (USF) – modelo C. Estas unidades são basicamente centros de saúde que serão construídos com dinheiros públicos (estão previstos 70 milhões) mas vão ser geridos por privados. Na penúltima semana de janeiro, abriram dois concursos para a construção das primeiras USF na região, em Silves e Lagos, os concelhos do Algarve onde há mais utentes sem médicos de família, 7.700 e 13.900, respetivamente, segundo os números oficiais.
Também por estes dias, surgiu o anúncio da empresa que está a concorrer à gestão destas USF. Aos médicos é-lhes oferecido um salário bruto de 7.200€; mais 200€ de subsídio de refeição, seguro de saúde e incentivos financeiros. Para a fixação em territórios carenciados, os apoios podem incluir habitação e pagamento das despesas associadas, cartões de combustível e outros… Salários e benefícios bem superiores aos que auferem no SNS.
Na realidade o que estamos a assistir é a um tremendo ato de perversidade que pretende dar uma machadada decisiva no SNS. Pode não o matar, mas colocará muitos serviços em coma prolongado.
A opção do Governo é a dar milhões para a construção de estruturas privadas que vão fazer concorrência com o SNS, e, inevitavelmente, retirar recursos humanos aos centros de saúde e hospitais públicos. Em vez de investir na melhoria das condições de trabalho e de salários de quem trabalha no SNS, para garantir que esses profissionais continuam a servir quem precisa, vai incentivar a que muitos deixem o seu lugar, numa procura (legítima) de melhores condições.
O Serviço Nacional de Saúde, criado em 1979, é considerado uma das maiores conquistas da revolução de 25 de abril. Tendo como objetivo assegurar o acesso a cuidados de saúde universais, gerais e tendencialmente gratuitos, trouxe consigo a certeza de que nenhum cidadão deixaria de receber os cuidados que necessitava.
Nos últimos anos tem sofrido ameaças e ataques vários, enquanto as unidades de saúde privadas prosperam – o que não acontece por acaso.
Não é ainda claro o modo como irão funcionar os centros de saúde privados. O Governo diz que apenas poderão atender os utentes que não tenham médico de família e não está garantido que tenham de assegurar alguns serviços básicos. Na prática estão a ser criadas todas as condições para que, num mesmo território haja cidadãos a serem tratados de forma diferente.
A grande porta da desigualdade já está aberta há muito tempo, desde que o SNS começou a ser empurrado para baixo, por políticas que se dizem liberais e que defendem a redução do investimento nos serviços públicos, nomeadamente na saúde e no ensino. O desinvestimento e as condições de atendimento já levam milhares de pessoas a recorrer a unidades privadas que apresentam lucros fabulosos. As mesmas unidades privadas que fecharam as suas portas na pandemia da Covid-19. As mesmas unidades onde a esmagadora maioria dos portugueses não entrará para se tratar de uma doença prolongada ou rara, porque simplesmente não terá dinheiro para isso.
Na verdade, se sofrermos de uma doença súbita ou prolongada, com tratamentos de milhares de euros, é nas mãos do SNS que ficará a nossa vida. Fechar os olhos a esta realidade e permitirmos que destruam o SNS é um ato de completa alienação.


