Um repórter aborda pessoas ao acaso, numa rua de uma grande cidade europeia e coloca-lhes uma questão: para si, quantas mortes seriam admissíveis, no caso de uma intervenção militar dita para derrubar um ditador?
Todos os entrevistados admitiam, com toda a naturalidade, a ocorrência de mortes, como uma consequência inevitável. E diziam o número que lhes vinha à cabeça, cinco, dez, vinte… números que nunca ultrapassavam poucas dezenas. Perante a aceitação, e a resignação, demonstrada pelos entrevistados, o repórter colocava outra questão: e se essa intervenção fosse no seu país e se entre as vítimas estivessem os seus pais, se entre as vítimas estivessem os seus filhos, toda a sua família, a maioria dos seus amigos? Se essa intervenção destruísse a sua casa, o seu local de trabalho, toda a sua aldeia, a sua vila? Se essa intervenção arrasasse a sua cidade? Se essa intervenção destruísse a sua vida, os seus planos, os seus sonhos?
Muitas pessoas congelavam de repente, perante a crueza das perguntas. Muitas choravam. Nem uma pessoa conseguia aceitar as mortes que anteriormente pareciam admissíveis, naturais. De repente, o mundo dava uma volta.
E o mundo está a dar voltas, totalmente imprevisíveis. Na altura em que esta edição do Terra Ruiva se constrói, há uma atividade descrita como intensa na “nossa” Base das Lajes, para servir de apoio aos caprichos do presidente Trump que, com um ataque ao Irão, afasta de si as atenções que estava a ser alvo, pela sua ligação aos ficheiros Epstein. Assim como o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu iniciou os bombardeamentos em Gaza quando enfrentava o início de um julgamento iminente devido a acusações de corrupção, fraude e quebra de confiança.
Na espiral de bombardeamentos e mortes que nestes dias se sucedem, com o Irão a responder e a atacar em diversos locais, as questões da importância das vidas e das mortes merece a nossa atenção redobrada. Porque, sim, para muita gente, a vida tem mais ou menor valor, consoante o local de nascimento (que nenhum de nós escolhe). Na televisão, oiço dizer que em Israel há não sei quantas “vítimas” dos ataques do Irão, mas no Irão foram mortos “apoiantes do regime”.
Mais uma vez, as palavras utilizadas para o jogo sujo da manipulação da opinião pública. Desumanizar o outro, tática que por cá também vai fazendo o seu percurso…
No nosso cantinho, assistimos pelos ecrãs a tudo isto, confiantes que, ao contrário de uma epidemia sanitária, não chegará até às nossas ruas, não afetará a nossa família.
Ao nível local, falando de política, estaremos porventura mais interessados em que a oposição, que chumbou o orçamento da Câmara Municipal para 2026, o aprove finalmente, para que obras programadas possam arrancar, e em março já não é cedo…
Ou, a nível pessoal, estaremos mais preocupados com o aumento do preço do petróleo, que os especialistas apontam como inevitável, e que trará consigo um aumento generalizado do custo de vida.
Para nós, os felizardos que não é provável que vejamos a nossa casa destruída, a nossa família morta, os nossos amigos desaparecidos… para nós, os felizardos que nos podemos dar ao luxo de ter opiniões e de manifestá-las, sejam elas de horror ou de aplauso para a impunidade dos senhores da guerra, as consequências também não tardarão.
De facto, seja qual for a nossa perspetiva sobre o que se está a passar no campo internacional, uma coisa é certa: neste mundo globalizado todos pagaremos a fatura. E não nos sairá barato.



Por vezes, necessitamos de fazer uso do acervo de prerrogativas que o 25 de Abril colocou à nossa disposição, no caso vertente, o direito ao contraditório.
Li com a devida atenção o editorial da senhora directora e não poderei estar mais de acordo em como é extremamente lamentável o sacrifício de vidas inocentes, em nome seja do que for.
Eu diria mais. Bastará que uma única vida seja imolada, seja sob que pretexto, para que nos devamos sentir indignados.
Recordo-me, porém – sou ainda desse tempo – que, quando se carregava com sacos de trigo um macho, apenas num dos lados do dorso do animal, era certo e sabido que toda a carga iria parar ao chão, porque desequilibrada.
Que me perdoe a cara directora, mas é também assim, que ressalta o modo como é visto o seu editorial, em que a objectividade ficou notoriamente prejudicada.
Não foi por acaso, que a própria Natureza, por algum motivo, nos criou com dois olhos e não apenas com um único.
Como assim ?
Com efeito, fazer apenas referência às vítimas ocasionadas pelos ataques dos EUA e de Israel, com vista a fazer cair um ditador e promotor do terrorismo, e branquear, por omissão, as várias dezenas de milhares de assassinatos de seus próprios concidadãos – também lá havia “mães” e “filhos” e pais e irmãos –, a sangue frio, com balas reais, ordenados por Ali Khamenei, de pacatos cidadãos, cujo único “crime”era o de manifestarem-se por um pouco mais de liberdade, tudo isso, cara senhora directora, convenhamos que peca, manifestamente, por uma dualidade de critérios, que não se compreende.
Para ressalvar qualquer má interpretação, acrescento que não pretendo, de todo, significar que concorde com aquele triste episódio de repressão. Certamente, a sua boa formação o repudia.
Só que não menciona essa condenação e, nisso, não foi feliz.
A propósito, para alguém que se queira dignar ler, deixo, abaixo, para reflexão, o “link” das decisões aprovadas no 4º Congresso do Sindicato dos Jornalistas, em Janeiro, e confirmadas no referendo de 26, 27 e 28 de Outubro de 2017, designadamente, a que é reportada no seu ponto “1”.
“link” :
Código Deontológico – Sindicato dos Jornalistas