Maior e vacinado: 21 anos do Terra Ruiva

Consta que o Jornal “Terra Ruiva” celebra em Abril os seus 21 anos de existência. Caso o jornal fosse um ser humano, e segundo algumas convenções, estaria a chegar à idade que marca o fim da adolescência e a entrar naquilo que nós chamamos de “vida adulta”. É normalmente nesta idade que se processam mudanças profundas na mente do “proto-adulto”. Aos 21 anos, tendencialmente, já está definida a personalidade que irá vigorar no resto da vida; se fores careta aos 21 anos, lamento, vais ser careta o resto da vida.
O “adulto de 21 anos”(e reparem o uso algo liberal das aspas), como já não tem 15 anos, já não se arroga da soberba arrogância que o impele a reclamar saber tudo debaixo do Sol, e que “os adultos não sabem nada”. Aos 21 anos, a malta já concebe que, se calhar, não sabe como é que o mundo funciona na sua totalidade. Mais, compreende que o mundo não revolve à volta da sua cabeça e do seu grupo de amigos, e que, se calhar, é melhor começar a trabalhar para ganhar uns cobres. Nesta idade, talvez já não se lembre de sugerir combates de MMA para resolver diferendos. A cadência da mítica frase “Já tens idade para ter juízo” reverbera mais vezes ao longo do ano, dita muita vezes pelos familiares mais próximos; pior, a frase começa a assumir alguns contornos de verdade!

Não obstante, os 21 anos têm aquele equilíbrio entre a irreverência e a maturidade; ninguém se chateia com um miúdo de 21 anos por ir passar 3 dias ao MEO Sudoeste na Zambujeira do Mar, mesmo que depois tenha de voltar ao trabalho no dia a seguir ao término do festival, ainda completamente ressacado. É jovem, só tem 21 anos; mas arca com as consequências da sua (ir)responsabilidade. Ainda assim, o raio do metabolismo ainda consegue processar toda essa irresponsabilidade em poucas horas e ainda manter algum grau de energia para laborar no que quer que seja. Aos 21 anos, o indivíduo é uma pedra já polida ao ponto de ter alguma forma, mas que ainda requererá algum trabalho para os retoques finais e assumir o seu lugar no mundo.

Portanto, e como a idade assim o requer, o Terra Ruiva é, aos 21 anos, um jornal com substância e com personalidade definida, mas ainda assim, desfruta da irreverência necessária para ir mudando e adaptando-se aos tempos que correm. O mundo era bem diferente há 21 anos atrás; não tínhamos o mundo ao dispor no nosso bolso sob a forma de um telemóvel, o Facebook nem era uma ideia na mente do então borbulhento pueril Zuckerberg, a Microsoft governava o mundo, a ideia de empresas baseadas unicamente na internet acabara de levar uma machadada com o crash das dotcoms e andávamos obcecados com a ideia do mundo acabar com advento do milênio. O autor deste texto frequentava a Escola Secundária de Silves, ainda adolescente inconsequente, cuja maior preocupação consistia em assegurar que chegava a tempo de apanhar o autocarro.

Quando a primeira edição do Terra Ruiva saiu, o jornal era, pasme-se, em papel, essa boa e respeitável tecnologia, já então com 600 anos de vida. Com a mudança dos tempos, o jornal também acompanhou a mudança; a ubiquidade da internet e a ascensão das redes sociais como forma de consumo de notícias, fizeram com que o jornal Terra Ruiva deixasse de ser apenas um jornal de papel e assumisse a forma de um website, com presença nas redes sociais.

Hoje, pode ler as notícias do jornal no ecrã do telemóvel e no computador, muito embora, admito, que considero que a edição em papel tem outro charme. Mesmo o jornalismo local está vítima do imediatismo e da urgência de apresentar notícias atuais e ao momento.

Toda esta nova dinâmica trouxe novos desafios para a comunicação social, das quais o Terra Ruiva não está imune. A Google e o Facebook assumem-se hoje em dia como os grandes pilares de distribuição de notícias no globo, e pouco pagam aos jornais que produzem essas notícias. A publicidade, que durante tantos anos financiou a comunicação social, foi reencaminhada para as redes sociais, induzindo o sector em crise. Toda esta situação estrutural foi agravada com a pandemia de Covid-19. O Terra Ruiva, não obstante não ser imune, sobrevive a essa crise, e completa 21 anos, muito por “carolice” da directora Paula Bravo e da restante equipa, que se superam e proporcionam um jornal de qualidade ao concelho. A ascensão das redes sociais proporcionou ainda o reforço do fenómeno das “fake news”, tal e qual autênticas campanhas de desinformação. Os jornais locais assumem especial importância no combate a este fenómeno; só informação de proximidade e de qualidade poderá responder aos devaneios e rumores que grassam nas redes sociais.

Aos 21 anos, o Terra Ruiva assume a sua entrada numa idade adulta, com especial responsabilidade para prestar ao público informação de qualidade e conteúdo pertinente, ainda que permaneça jovem para experimentar e evoluir com o mundo. É que afinal de contas, e tendo em conta a circunstância atual, o melhor que poderia acontecer ao Terra Ruiva é ser “maior e vacinado”.

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