E por que não faço eu?

Um dia, estava a conversar com o presidente de uma junta de freguesia quando este foi abordado por um cidadão. O cidadão vinha indignado. E, na sua opinião, não era para menos. A sua esposa tinha tido um acidente de viação e deslocava-se agora de cadeira de rodas. Mas acontecia que o acesso à casa onde moravam tinha ervas no passeio: “Aquilo está tudo cheio de ervas, não consigo entrar com a cadeira de rodas!”, dizia e repetia o cidadão. E numa zanga crescente criticava os trabalhadores, o presidente e a própria Junta. Uns porque eram “malandros”, este porque não cuidava devidamente dos primeiros e a Junta porque não cumpria o seu dever! E rematava com a frase mais escutada nestas ocasiões: “nunca mais têm o meu voto”!

O caso seguiu os trâmites normais. O presidente assegurou-se de que o cidadão era atendido por uma funcionária que tomou nota do pedido e garantiu que este seria atendido. E já depois, quando íamos à nossa vida, teve o desabafo: “ Então o que lhe custava arrancar as ervas naquele bocado em frente à casa, para passar com a cadeira? Levou mais tempo a vir aqui e a voltar para casa do que teria levado para arrancar as ervas…”

Este episódio vem-me à cabeça, agora, quando terminamos o ano numa conjuntura tão difícil. E paradoxal. Uma sociedade em que uma parte significativa dos cidadãos se limita a sacudir as responsabilidades para as entidades oficiais, do poder local ao central, como se não tivesse competências para apanhar as ervas à sua própria porta, vive uma situação de pandemia cujo desfecho depende principalmente da responsabilização de cada um, pela sua própria saúde e vida.

Divididos e encerrados no nosso ínfimo mundo quotidiano não teremos tido talvez tempo para pensarmos nas conquistas que, apesar de todas as dificuldades tivemos este ano.

A nível local, poderia enunciar os importantes projetos que despontam no concelho como a criação da Área Protegida da Baía de Armação de Pêra e a criação do Geoparque Algarvensis. Projetos que não se esgotarão na espuma dos dias e que trarão benefícios a muito longo prazo para os seus lugares. Ou destacar o pioneirismo do concelho de Silves no desenvolvimento da compostagem doméstica e comunitária, o sucesso no combate às perdas de água e na melhoria da eficiência energética, ou o facto de que, contra muitas probabilidades, o concelho vir a ter o primeiro PDM de nova geração aprovado no Algarve.

Ou o facto de que as páginas das nossas edições estiveram frequentemente dedicadas a jovens artistas e atletas do concelho que se têm distinguido em diversas áreas. E não menos relevante o ano terminar com a presença do presidente da República em São Bartolomeu de Messines, para se juntar à homenagem ao poeta e pedagogo João de Deus!…

Imersos na contagem “dos covides do dia”, não teremos talvez notado que as instituições e entidades do nosso concelho não nos falharam nestes tempos de medo e incerteza.

As autoridades de saúde, a presidente da Câmara Municipal de Silves, os vereadores, os autarcas das freguesias do concelho, os elementos da proteção civil municipal, os funcionários das autarquias, os nossos bombeiros e forças de autoridade estiveram sempre presentes, mesmo tendo tanto medo quanto nós todos. E a estes, em vários locais, juntaram-se voluntários, na desinfeção das ruas, na distribuição de bens essenciais a quem não podia sair de casa, no acompanhamento a pessoas doentes, na confeção de fatos e máscaras oferecidos aos hospitais, na criação de caixas solidárias para ajudar a mitigar as necessidades mais básicas.

Na altura em que escrevo estas linhas, a luta contra a doença que nos limita impera ainda sobre o nosso quotidiano, com números assustadores de mortes e internamentos. A ténue luz da esperança, no entanto, já se faz notar. E é essa luz que temos de seguir, prudentemente, é certo, mas com o sentido de caminharmos para o lugar certo. Neste Natal e final de ano, um ano atípico, como lhe temos chamado, saibamos, ainda assim, dar brilho ao que de bom temos vivido. Será utópico pensar que esta experiência poderá transformar a humanidade, mas talvez possa despertar-nos para a importância das pequenas ações, aqueles pequenos/grandes gestos que cada um de nós pode fazer por si e pela sua comunidade. São esses o melhor legado que podemos deixar a quem partilha o mundo connosco.
A todos, desejo saúde e esperança. Amor e solidariedade.

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