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Opinião

Há três noites que eu não durmo

António Guerreiro
Última Atualização: 2020/Out/Sáb
António Guerreiro
6 anos atrás
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Quando eu andava na Escola Primária, há uns cinquenta anos, nós, os rapazes, cantávamos a música tradicional do galito. «Há três noites que eu não durmo, lalá,/eu perdi o meu galito, lalá./Coitadito, lalá!/pobrezito, lalá!/Eu perdi-o no jardim./ (…)».

Apesar do jardim ser perto da escola, nunca imaginei que o galito teria sido perdido naquele jardim. Até porque, o jardim era, para mim, um local de passagem e não de permanência. Por isso, a que propósito eu levaria para o jardim o meu galito?

Nesse tempo do antigamente, os sábados de manhã, na escola, eram ocupados com estas músicas tradicionais e, decerto, com alguma doutrinação, em substituição das atividades da mocidade, que deixaram de ser obrigatórias em 1971. Recordo, o galito, o mar enrola na areia e pouco mais, dessas atividades curriculares, em complementaridade do saber ler, escrever, contar e da geografia e história da nação e do cristianismo. Nessa época, tudo era família tradicional e os afetos eram normalizados com a chancela da religião católica. Nada de democracia, nada de pensamento livre, nada de equidade na diferença, nada de cidadania e desenvolvimento.

Voltemos ao galito, o qual, evidentemente, fugiria de um jardim paredes meias com um matadouro, em que os berros dos bezerros e de outros animais de porte eram bastante audíveis, especialmente para um galito, ao qual também chegaria o dia da matança. Patas para que vos quero! Corre, corre galito. Corre, corre pelo jardim. Corre galito, corre.

Por falar em jardins, existem os franceses, rígidos e formais, em que o homem domina a natureza, criando formas geométricas e simetrias perfeitas, e os ingleses, ambientes que valorizam a harmonia e a beleza dos espaços naturais. O jardim em que o galito foi perdido era certamente inglês, onde as formas naturais do galito mais facilmente se confundiriam com os arbustos do jardim.
Nenhum destes jardins, franceses ou ingleses, existiram ao longo dos últimos cinquenta anos, nem existem, na minha cidade. O que existia era um espaço degradado e pouco iluminado, paredes meias com uma ribeira onde escorria o sangue dos animais, uns lavabos indignos e dois estabelecimentos comerciais sem as condições adequadas a espaços de lazer. O que ainda era valorizado, em noites de verão, talvez há mais de vinte anos, eram os espaços abertos, onde se via cinema e se convivia ao som da música da filarmónica. As árvores já apresentavam uma decrepitude crescente.

Estive no jardim da República, gostei dos espaços abertos, valorizando os edifícios públicos, nomeadamente a Escola Secundária de Silves e a Casa da Cultura Islâmica e Mediterrânica. Gostei das linhas urbanas do espaço comercial. Gostei dos corredores das futuras árvores. Não sei para que servem dois cubos brancos, no meio do espaço. Reparei na inexistência da preciosa água, resultado das presentes e crescentes alterações climáticas.

Um jardim para o meu galito, pois eu perdi-o lá no jardim.

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PorAntónio Guerreiro
Natural de Silves, nascido em 1962, é doutor em Educação Matemática, professor e diretor da Escola Superior de Educação e Comunicação da Universidade do Algarve. Os seus interesses atuais nos tempos livres são a escrita, a leitura e a fotografia.
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