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Vítimas da Pandemia

Joaquim de Almeida Negrão
A maldita pandemia matou-o aos 79 anos. Joaquim habitava com a família na Praia da Rocha. Tinha construído o seu ‘chalet Negrão’ para sentir os cheiros, rugidos e murmúrios do mar. E descansar o olhar na paixão de toda vida.
Joaquim agonizou no leito e extinguiu-se no fim de Outubro de 1918.
António Corte-Real Negrão, o seu filho, de 27 anos, também foi levado, poucas horas depois.
Este filho varão deixou dois herdeiros de tenra idade. A viúva, ainda lutava contra a doença, quinze dias depois…

Esta pandemia já, em 1918, assim era referida nos jornais. Não é muito diferente da que nos angustia por esta Primavera chocha. Ficou conhecida por pneumónica, ou gripe espanhola, para nós, portugueses. Para a vizinhança, do outro lado da fronteira, por gripe francesa.
Influenza. As más influenzas vêm sempre de fora.
Quiçá provinda dos Estados Unidos, trazida pelos militares da Grande Guerra, tinha a matrícula tenebrosa de H1N1. Matou mais de 50 milhões, pelo mundo fora.
Gostava de jovens adultos, de preferência, como o António Negrão. Mas não poupou o seu pai.

Joaquim, quando morreu, era um velho de “organismo rijo”. Tinha nascido na Vila Nova de Portimão, a 26 de Agosto de 1839. Portimonense culto, atlético, temerário, mulherengo, amigo do seu amigo. Ao olho evocativo de Manuel Teixeira Gomes, vinte e um anos mais novo, era uma “figura desportiva, donjuanesca, aventurosa.”
Comandante de navios, proprietário agrícola, negociante, dono de duas armações da atum, ao largo do mar de Carvoeiro e de Beliche. Na primeira, designada «Sul do Cabo Carvoeiro», presenciou Manuel Teixeira Gomes a jornada que relatou, “Uma copejada de atum”, num dos mais inspirados textos da literatura portuguesa do século XX e publicado em Agosto Azul.
Joaquim estudou no Colégio dos Inglesinhos, em Lisboa. Falava fluentemente francês, inglês, espanhol e arranhava o alemão. E até tinha, madeçoade, sotaque portimonense.

Era menino rico. O que não é defeito mas virtude aos olhos dos outros. O pai, António Joaquim da Silva Negrão, nascido em 1798, erguera fortuna vistosa. Tinha sido rendeiro de Eugénio de Almeida. Deste mesmo, José Maria Eugénio de Almeida, uma dos maiores proprietários agrícolas do país, no século XIX, e que dá o nome à Fundação sediada em Évora. Vai uma garrafinha de Pêra-Manca 2.000?
Joaquim foi grande amigo, “de tu”, do nosso João de Deus e do Antero de Quental. Ficou famoso por, ao leme do seu patacho, uma embarcação à vela de 30 metros, o Carolina, ter levado o açoriano à América do Norte. Partiram do Porto e regressaram, já Novembro, deste 1869, ia a meio.

João de Deus só não embarcou, na companhia do Joaquim Negrão e do Antero de Quental, porque se acagaçou e roeu a corda.
Era mais moço de sequeiro.

E já tinha idade para ter juízo, aos 39 anos, mais 9 que o Joaquim. A sua Guilhermina, com quem Deus viria a casar mais tarde, neste Julho soalheiro de 1869 em que o Carolina atravessou o Atlântico, já estava pejada da Maria Isabel, a primeira dos quatros rebentos, e que iria nascer nas cercanias deste Natal.

Joaquim de Almeida Negrão tinha participado, juntamente com o seu amigo e conterrâneo, Francisco d’ Abreu Fialho, na «United States International Centennial Exhibition 1876». Fialho e Negrão levaram os vinhos generosos que se produziam no Algarve, nomeadamente no município de Vila Nova de Portimão.
Este extraordinário certame internacional, que levou expositores de todo o mundo a Philadelphia, destinou-se, como o nome indica, a comemorar o centenário da Independência dos Estados Unidos, e foi organizado pela United States Centennial Comission.
Hoje ninguém repara em Joaquim de Almeida Negrão, vítima da pandemia de 1918-19. Somos muito dados ao esquecimento. E só nos lembramos de nós, e de alguns poucos, enquanto vivos.
Uma pesada pedra mourinha entulha no silêncio os melhores e menos conhecidos de nós. Não é justo.
Vai sendo altura de aliviar a pedra da nossa amnésia colectiva. Joaquim de Almeida Negrão e outros, de quem falaremos, merecem o resgate…

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Um Comentário

  1. Bom dia..
    Como passo temporadas em Pêra, onde tenho casa, interessa-me conhecer e estar a par das noticias locais.
    Obgd e cumprimentos
    Afonso Henriques

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