Existem coincidências (ou talvez não) na nossa vida que nos transportam para mundos inimagináveis. Uma dessas relações (in)explicáveis aconteceu entre mim e o Federico García Lorca (Fuente Vaqueros, 5 de junho de 1898 – Granada, 18 de agosto de 1936) apesar da nossa impossível permanência conjunta no mesmo espaço e no mesmo tempo.
Em 1996, dei voz às suas palavras ao integrar o elenco da peça O Pequeno Mundo de D. Cristóbal(no original Retablillo de Don Cristóbal, escrita em 1930) de Federico García Lorca, levada à cena pelo GRUTA – Grupo de Teatro Amador de Silves. Fui, salvo erro, Currito, um dos amantes de Rosita.
Ainda no final do século passado, dediquei ao dramaturgo e poeta, entre outras coisas, um escrito em formato de poesia que intitulei «Encontro», provavelmente após uma viagem a Granada:
Encontrei os teus olhos num rouxinol, em Alhambra.
Encontrei a tua voz no murmúrio dos becos árabes.
Encontrei o teu sangue vermelho nas calçadas de Granada.
Encontrei-te, Lorca, de madrugada.
Estes quatro versos revelam um escritor ingénuo, com a necessidade de suavizar um ato bárbaro do fascismo espanhol. Não para o desculpabilizar, mas para candidamente acreditar no natureza heróica do sangue vermelho vertido nas ruas e nas calçadas, na luta pela dignidade humana.
Como eu estava errado! Como a realidade fria de um fuzilamento consegue também ser literária, retratada no realismo mágico de David Uclés em A Península das Casas Vazias:
«O amigo de Lorca chama-se Luís Rosales, e pouco pôde fazer quando a Benemérita (Guardia Civil) se apresentou em sua casa exigindo-lhe que entregasse o poeta antifascista.
– O meu amigo não é antifascista. É católico, comunista, anarquista, libertário, tradicionalista e monárquico, mas antifascista não!
– Tudo isso? Então que o explique ao juiz! Que não tardará a chamá-lo a capítulo (a exigir-lhe justificações e a pedir-lhe contas pelas suas ações).
– Ele não fez mal a ninguém! É um simples escritor!
– Alguns há que fazem mais mal com a caneta do que com a pistola.
Não teve outro remédio senão ceder.
Lorca foi julgado como espião russo, maçom e sodomita, e fuzilaram-no na noite seguinte num barranco entre Viznar e Alfacar, precisamente onde hoje cresce uma oliveira que no mês de agosto dá luzeiros frios e neve.»
Necessitamos de muitas canetas munidas de realismo mágico para ultrapassar a angústia permanente destes fascismos sempre iminentes!
De madrugada, Lorca.


