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Memórias Breves (24) – Uma lição em Tunis

É COMPLICADO entrar no tempo passado e desenvolver o futuro. Já o passado, esse, é entendido como desinteressante, como se não tivesse entrado e persistido nas memórias para as construções dos tempos… Como se a memória não fosse um caminho existencial. E nessa complexidade do desenvolvimento, o passado é entendido num futuro do complexo.
Muito do meu tempo foi debatido entre jovens, nos dois graus, no dizer e ouvir entendido, sendo a Escola deles, também a minha, nessa responsabilidade mútua. Quanto mais a escola era habitada por classe de privilégio, mais complicada se tornava: Genève, Paris, Lyon, Saint-Etienne, Tunis, Siracusa, etc. Tudo tão próximo, tudo tão, supostamente diferente.

Mosaico Romano- “O Triunfo de Neptuno”- Museu do Bardo. Tunis.

Como poder discernir a História dos Povos, agarrada às suas peles!? E quanto menos o espaço transpirava “burguês”, mais profícuas eram as comunicações. Entrar na breve memória, no caso, da ocupação francesa-tunisina, em que os jovens desdobravam palavras, que os franceses deixaram e me confundiam no seu dialético de origem, criando discussões pessoalíssimas, entre eles, regressando à língua gaulesa, perante o meu sossego de ouvinte . E tudo se passava num desentendimento entendido. E eu, no meu silêncio consentido, procurava o entendimento.

Saímos ao encontro dos turistas, casualmente: escutá-los…Mas nem por isso! Andavam em ignorâncias (?) disfrutando a bela Tunis, sobrepondo-se o anglicanismo linguístico, numa civilidade opulently, que disfrutavam, notoriamente. Saímos, trocando a civilização do turista, pela civilização nata … Entrámos no Foru-Tatsaquine. Seguimos ao Museu do Bardo, nos mais distintos azulejos romanos, quanto o de Faro o tem, pelas mesmas conquistas: romanas, cristianismo, depois árabes. De pés nus à porta da grande Mesquita Djama Sadi Okba, num significado de espaço sacro, na fé de cada qual. Assim o entendi. Os jovens praticavam as suas preces, em vocábulos musicais. E eu era todo ouvidos, como, quando D. Laura, uma crente, na Igreja de Messines, a minha terra de infância, evocava o Bem-Dito Louvado, ecoando nas naves do templo de S. Bartolomeu . E eu ali descalço, como os demais, sem receios do século XXI, ali estava aguardando, no meu silêncio e respeito, no conhecimento das religiões, ao meu entender de comunicador.

Que secura! Uma água fresca, digo, deixando a admirável Mesquita. Fomos à tisane de hortelã, em vontade comum. Uma esplanada à sombra de densas palmeiras. E, todos sentados em capachas de palma. Chá fresco, bebido e apreciado. Recomeçou a conversa, depois dos silêncios. É Tarek quem ergue o braço, numa pose simples e sério. Logo lhe é entregue a palavra.

Levanta a voz. Faz-me uma saudação de permissão, que eu não considerei de submissão. Um silêncio de respeito, pelo dizer e pelo ouvir. Um respeito de tradições. E abriu-se o podium: O que é a Tunísia, como País independente: É incerto, como sempre assim foi ? Um profundo silêncio. Eu indico a uma das raparigas, dando-lhe a palavra de resposta. A jovem aperta o lenço que lhe enfeita a cabeça, e pergunta, se ficamos no século XX. E fez silêncio. Eu aguardo. E num conjunto unânime se decidiu a escolha pessoal. E a jovem passa a palavra a Tarek, o mais reconhecido de aluno orador… E, eu, ali aguardando as decisões nas palavras e ideias sempre apreciadas, numa assembleia mais masculina, assim desejada, numa tradição ainda natural, cultural e sociológica. Tarek pega no calendário da História, sua e deles: Os conquistadores têm séculos, passado e presente, nesta história política, económica e militar … Séculos de poderio, de retoma, em grupos étnicos, de chamados civilizadores, numa população de semitas (africanos – árabes ) e … europeus : franceses, italianos. Assim como judeus. Numa tradição de cruzados, em religiões dominantes. O islamismo passou a ser desrespeitado, em inimigo… Foi o nosso “fautif”, o nosso fadário… O que passámos para chegar ao 20 de Março de 1956…

Vem da conquista de Carlos V, um rei europeu sem nacionalidade. Tanto alemão como austríaco, sem ser espanhol, numa ambição, não só europeia. E as conquistas sucedem-se, sem respeitos nas origens. Até… “Na cidade de Deus”, que Agostinho, desdenhado, aqui feito Homem, ficou numa incerteza. Reparemos na herança napoleónica. Com que direitos !? Uma cidade, um País, fundados no ano 800 a.C. Com Cartago nas origens de capital. Seguiu-se França, depois da conquista de 1830; depois Tunis, pelo Tratado do Bardo, a 12 de Maio de 1881,em que Mohamed el-Sadok, concede à França o direito de ocupação, etc.etc. Só pelo fim da 2.ª grande Guerra Mundial se assinou, a 20/03/1956, a preparação para 25/07/1957, a chamada total independência da Tunísia.

Tarek parou, limpou o rosto. Olhou-me num salamaleque de cortesia, pousou o olhar sobre o conjunto de assistentes, levou as mãos à testa, à boca, ao peito, num silêncio aguardado. Ouviu-se, em pronuncia europeia, um apelo à continuação: Allez… Allez! O jovem tunisino cruzou os braços no peito, inclinou a cabeça. Olhou-me para um sim em continuidade. Fiz um sinal de que estava terminada a aula. Num passado para o presente. Uma aula. CONFERÊNCIA. ESCUTADA NUMA LIBERDADE CERTA, NA PALAVRA CONCRETA.

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