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Viandante

Na saga das viagens, desta vez em Lisboa.

Estive na capital nos primeiros dias do mês de junho. Geralmente vou em trabalho, como foi o caso, mas desta vez decidi tirar um dia para percorrer Lisboa, em locais que jamais tinha andado. Por isso, durante um dia, numa quarta-feira, fui um andante, provavelmente mais movimentado do que o Johnnie Walker, do uísque escocês, numa tradução livre, o João Andante. Não o encontrei pelas ruas da nossa capital, mas provavelmente no mesmo dia à mesma hora andaria, no seu passo apressado, pelas ruas de Edimburgo. Gosto de passar por locais com história, a rua do Arsenal, por exemplo, apesar de não existir visivelmente uma réstia da essência de liberdade, na vitória dos capitães de Abril, eles estavam lá, como no largo do Carmo.

Em Silves não existe, em placa explicativas, uma única alusão, à historicidade de alguns edifícios, como o antigo edifício do sindicato dos corticeiros, que até é propriedade do município. O turismo faz-se também de pequenas coisas. É comum, em Lisboa ou em Paris ou em outras cidades, existir uma nota explicativa sobre edifícios, largos, ruas em que a memória flutua como a essência do saber. Voltemos a Lisboa.

Fui à Fundação Saramago, na Casa dos Bicos. Uma literatura que se vê e que ouve, numa voz inconfundível do autor. Segui até à Estação de Santa Apolónia, muitas vezes fiz este percurso, Terreiro de Paço – Santa Apolónia, a pé ou de táxi, provavelmente, na maioria das vezes, a minha estada em Lisboa, restringia-se a este pequeno percurso. O meu destino era Coimbra, o meu endereço era Silves, como nas cartas postais. Subi a Alfama e à Graça, onde nunca tinha estado. Ruas típicas das altas das cidades velhas, num entrecruzar de ruelas, que nos transporta para a lotação de turistas em Tuk Tuk, enfileirados a descer e a subir colinas. Fui turista, desta vez fiquei num Alojamento Local, durante quatro dias, junto ao metro da Alameda. Conceito interessante, apesar de continuar a preferir o hotel.

De retorno ao percurso andante, decidi ir ao Panteão Nacional, mas antes almocei num pequeno restaurante vegetariano, mesmo nas costas do monumento nacional. A comida, e sempre falo em comida, estava deliciosa, supimpa, palavra brasileira informal que me ocorreu neste momento em que escrevo, um risoto de limão acompanhado de vinho biológico. A capital apresenta-nos um vasto cardápio de seres, desde marialvas, no dizer de uma amiga alfacinha, radicada no Algarve, até jovens poliglotas. Num encontro de amigos, numa das mesas da pequena esplanada do restaurante, ele do Porto numa deslocação a Lisboa, ela a trabalhar nas redondezas do estabelecimento, ambos portugueses (ele e ela), depois de encomendarem as saladas, ela numa resposta a uma qualquer pergunta, respondeu em inglês, desculpando-se que estava fazendo uma candidatura (europeia) e só pensava em inglês. Ele solícito, disse-lhe que poderiam falar em inglês. Dois lusos na esplanada de um restaurante dialogam em inglês, tal como imagino a corte russa a falar francês enquanto o Napoleão avança com as suas tropas para Moscovo.

Por falar em inglês, na noite deste dia, fui ao Teatro da Trindade ver o Romeu e Julieta de William Shakespeare. Estavam muitos jovens, de uma escola, antecipando a promessa do governo. No intervalo, um dos jovens perguntava a um adulto, talvez professora, Como conheces a história, ainda falta muito para acabar? No intervalo, ainda estavam todos vivos, ao contrário do Panteão Nacional em que estavam todos mortos. Uma desilusão, pagamos quatro euros e rouba-nos seis mortos, sepultados pelo nosso país, todos aqueles da sala principal, heróis das descobertas, ninguém está lá. Por isso, os repastos oficiais não foram assombrados pelos digníssimos defuntos. A cidade é linda e é verdadeiramente uma cidade, os turistas andam aos grupos e de Tuk Tuk, os locais são exuberantes ou apagados de dia e de noite, mais à noite, vivendo atulhados nos transportes, públicos e privados, da capital.

Que bom foi o passeio em Lisboa.

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