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Estudo da Almargem propõe medidas para a defesa da Lagoa dos Salgados e Sapal de Alcantarilha

Conter a elevada pressão imobiliária que pende sobre estes territórios, criar um estatuto de proteção e condicionar a presença humana – estas são algumas das medidas que são propostas para a Lagoa dos Salgados e Praia Grande.

É necessário conter a elevada pressão imobiliária que pende sobre a zona da Praia Grande (Pêra), classificar a Lagoa dos Salgados como sítio protegido para várias espécies e condicionar o acesso a esta lagoa e ao sapal de Alcantarilha, defende a Almargem – Associação de Defesa do Património Cultural e Ambiental do Algarve.

Lagoa dos Salgados

Estas propostas da Almargem encontram-se no estudo promovido por esta associação, no âmbito do qual, pela primeira vez, foi feito um diagnóstico exaustivo de três zonas húmidas da região do Algarve, nomeadamente a Lagoa dos Salgados e o Sapal de Alcantarilha, nos concelhos de Silves e Albufeira; a Foz do Almargem e Trafal, em Loulé; e as Alagoas Brancas, em Lagoa.
“O projeto surgiu com o propósito de preencher as lacunas de conhecimento científico e socioeconómico das zonas húmidas da Foz do Almargem e Trafal e das Alagoas Brancas e de compilar e aprofundar informação existente, no caso da Lagoa dos Salgados.”

O objetivo principal deste trabalho é o de com base nos dados científicos recolhidos pressionar as entidades a reconhecer a importância ecológica deste locais e a tomar medidas de proteção destes habitats. Para além de medidas concretas com vista à preservação de espécies e habitats naturais, pretende-se também criar as bases para uma eventual futura classificação destas zonas como áreas protegidas de âmbito local.

O estudo resultou de uma candidatura aprovada ao Fundo Ambiental do Ministério do Ambiente e Transição Energética, foi coordenado pela Associação Almargem com o apoio de coordenação científica da Sociedade Portuguesa para Estudo das Aves – SPEA, e contou com uma equipa técnica formada por especialistas independentes bem como de entidades como o Centro de Investigação Marinha e Ambiental da Universidade do Algarve, do Tagis – Centro de Conservação das Borboletas de Portugal e do cE3c – Centre for Ecology, Evolution & Environmental Changes da Universidade de Lisboa.

Neste artigo, destaca-se o “Estudo de Valorização Lagoa dos Salgados, Foz de Alcantarilha”, fonte de todos os dados que aqui são citados. (O estudo completo pode ser lido, aqui: estudo valorização _salgados_alcantarilha_final_abr_2019 2 almargem )

Lagoa dos Salgados e Sapal de Alcantarilha

A área de estudo abrange as zonas húmidas da Lagoa dos Salgados e Sapal de Alcantarilha, assim como sistemas dunares, prados, pomares de sequeiro e habitats de natureza agrícola.

No âmbito deste estudo revelou-se que a área é extremamente rica em vida selvagem, nomeadamente em espécies com estatutos de proteção elevados. A zona alberga cerca de 1% da população regional de ibís-preta, e de colhereiro – o que potencialmente a classifica ao abrigo da convenção de RAMSAR – e mais de 1% do contingente nacional de outras 10 espécies de aves aquáticas.

A área engloba 12 habitats naturais e semi-naturais constantes do Decreto-Lei n.º 49/2005, tendo sido registados 5 elementos florísticos raros.

No local foram ainda registadas diversas espécies de artrópodes com valor de conservação, nomeadamente borboletas diurnas (2), libélulas e libelinhas (7), grilos (2), e 4 espécies de répteis com estatutos de conservação desfavoráveis.

“Face à singularidade das espécies presentes na área”, o referido estudo defende que “a criação de um estatuto de proteção é essencial e imprescindível para a conservação e gestão da área, sendo sugerido um sistema de zonação em unidades biológicas diferenciais, divididas em 4 unidades práticas de gestão.”

São propostas várias medidas “para salvaguardar e assegurar o bom estado ambiental dos valores naturais presentes, nomeadamente a criação de um regime de proteção, a gestão e monitorização do nível da água, condicionamento e ordenamento do acesso a pessoas e viaturas, requalificação de equipamentos existentes, gestão de pastoreio, controlo de espécies de flora invasoras e valorização da área através de um plano de visitação”.

É ainda de referir “que ao longo do estudo foi realizado um inquérito online com vista à auscultação do público sobre o futuro das zonas húmidas ao abrigo deste projeto, sendo que 100% dos inquiridos concorda com a criação de um regime de proteção para a área Lagoa dos salgados – Sapal de Alcantarilha, com as normas de utilização subjacentes.”

 

Riqueza de espécies

Alguns números

  • Nos últimos 10 anos foram registadas 221 espécies, o equivalente a cerca de 60% do total de espécies historicamente registado para todo o Algarve;
  • Mais de 20 espécies de aves aquáticas nidificam na área da Lagoa dos Salgados;
  • A Lagoa dos Salgados é até à data o único local onde a nidificação de pêrra (Aythya nyroca) foi confirmada em Portugal; •
  • A Lagoa dos Salgados é um dos únicos locais do país onde criam 5 espécies de anatídeos;
  • A Lagoa dos Salgados e Sapal de Alcantarilha acolhem acima de 1 milhar de aves aquáticas durante o período de inverno;
  • A Lagoa dos Salgados alberga mais de 1% (n=560 indivíduos) da população regional (Mediterrâneo, Mar Negro e África Ocidental) de Íbis-preta; e cerca de 1% da população regional (Europa, Mediterrâneo e África Ocidentais) de colhereiro (n=110), o que lhe confere importância internacional;
  • A área alberga cerca de 1% da população invernante em Portugal de flamingo, pernilongo, e águia-pesqueira;
  • Toda a área é território de caça de aves de rapina residentes e invernantes como a águia-d’asa-redonda, a águia-sapeira, o peneireiro-cinzento; ou o falcão-peregrino;
  • As áreas de sapal e caniçal são utilizadas por espécies de passeriformes invernantes pouco abundantes como a petinha ribeirinha, o pisco-de-peito-azul e o chapim-de-mascarilha;
  • A Lagoa dos Salgados, Sapal de Alcantarilha e campos adjacentes são um ponto de paragem importante entre aves que fazem migrações entre os seus territórios de nidificação a norte, e áreas de invernada no continente Africano, tanto na primavera como no outono;
  • Foram inventariadas 139 espécies de insetos e outros artrópodes, 14 delas com valor de conservação (ficando claro que esta lista é bastante inferior à verdadeira lista de invertebrados que aqui ocorrem):
  • Esta zona tem grande valor como área de reprodução de libélulas e libelinhas do Algarve. É um dos poucos locais do país onde se encontram duas espécies raras e ameaçadas em Portugal, mais cinco espécies de Quase Ameaçadas e 19 espécies comuns.
  • Encontra-se dois grilos com estatuto de conservação na Europa, o grilo dos caniços e o grilo das palmas.

 

 

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