Home / Opinião / O Abstencionista Indignado

O Abstencionista Indignado

Em 25 de Abril de 1975 realizaram-se as primeiras eleições para o Parlamento Português. A taxa de abstenção ficou nesse ano nos 8.3%. A novidade, oferecida pela oportunidade de participar na escolha dos destinos do País, passados 48 anos a viver em ditadura, explicam facilmente este número. Sem surpresa, a abstenção tem subido progressivamente desde essa altura, alcançando 43% em 2015. Nas autárquicas de 2017, em Silves, chegou aos 48% e nas recentes europeias, em algumas regiões chegou aos 70% (embora tenha havido mais votantes que em 2014).

Muitos vêem a abstenção como moralmente justificada. Sentem estar a castigar a classe política pelo estado do País, que percepcionam como indo de mal a pior. Os portugueses (e não só) gostam muito de se queixar dos políticos. “Malandros”, “ladrões”, “corruptos”, “são todos iguais”, “só querem é tacho” e outros mimos ouvem-se frequentemente. É nesta percepção que em geral se justifica a abstenção.

Acontece que a abstenção como forma de protesto não faz qualquer sentido. É uma atitude infantil. Nada produz e nada propõe como alternativa. No entanto, por muito irracional que seja, há quem continue a escolher este caminho para se manifestar.

Penso que estão profundamente errados.

Desde logo acredito que a corrupção não seja tão elevada como se diz. O facto de existir em democracia um maior escrutínio, levando à divulgação de tudo quanto é caso, dá uma percepção errada da dimensão da corrupção. Por outro lado, a existência de ladrões é inerente à natureza humana, como tal estranho seria que não fossem detectados casos. Significaria que algo estava errado. Não fico assim nada preocupado quando políticos são apanhados a roubar, bem pelo contrário. O número de casos deve ser monitorado e se for um valor residual, não há causa para alarme. Queremos é que sejam punidos de forma rápida e seguindo regras de um julgamento justo. A partir desse momento sei que esse político não enganará mais ninguém, (a não ser quem queira ser enganado).

Olho para os políticos como olho para as pessoas em geral. Há os bons, os maus e os assim-assim. A demonstrá-lo estão todos os casos de corrupção que não envolvem políticos. Não foram os políticos quem mandou criar facturas falsas e empresas fantasma para obter fundos comunitários. Também não foram os políticos quem foi alterar a morada fiscal à pressa, para receber a casita nova em Pedrógão. Não são ainda os políticos quem manda aldrabar nos impostos para pagar menos, e também não são os políticos quem manda meter baixas fraudulentas. Só para dar alguns exemplos que mostram que os políticos não são nem piores nem melhores que os outros portugueses.

Há em Portugal muitas injustiças que precisam de ser reparadas. Claro que nem tudo são rosas. É possível e urgente fazer muito melhor em vários sectores da nossa sociedade. No entanto, também é verdade que já muito foi alcançado.

Nos 45 anos que levamos em democracia, passámos de taxas de analfabetismo na casa dos 25% em 1970 para cerca de 5% em 2011. A taxa de mortalidade infantil em 1970 era cerca de 55%, metade dos portugueses nascidos na década de 70 morriam, hoje está nos 2.7%, ao nível das melhores do Mundo. Foi criado o sistema nacional de saúde, dando a todos os portugueses acesso a assistência médica, algo que não existia. Temos uma rede rodoviária ao nível das melhores do Mundo. Deu-se acesso à universidade a todos os portugueses. Recebo com frequência jovens portugueses onde trabalho e todos sem excepção falam um inglês perfeito e estão aptos a trabalhar num mundo globalizado a par de colegas de todo o Mundo. Por volta dos anos 70, as mulheres na mesma função que os seus colegas masculinos ganhavam metade do salário. Uma injustiça vergonhosa, que foi reparada. Despenalizou-se o aborto, evitando a morte de muitas mulheres. Os homossexuais viram os seus direitos reconhecidos e são agora menos discriminados, diminuímos em muito uma mentalidade tacanha e racista contra os portugueses de origem africana. Enfim, a evolução do País é de tal forma significativa nestes últimos anos que nem vale a pena dar mais indicadores. Tudo isto se deve aos portugueses que resolveram ser politicamente activos, de todos os partidos sem excepção, pois de uma forma ou outra todos deram o seu contributo.

Para continuarmos a evoluir, precisamos de uma população alerta, educada e culta que queira cuidar da causa comum e que possa supervisionar o que cada partido faz.

É preciso, por exemplo, vigiar em que sentido cada partido procura responder a casos de corrupção, ou como implementa as propostas no seu manifesto eleitoral. Projectos políticos que não o actuem de forma séria, devem ser punidos nas eleições e eliminados do sistema. É nesta purga que a democracia oferece (e outros regimes não) que todos temos o dever de participar para tornar o país mais justo, mais eficiente e melhor.

A realidade não compactua com visões infantis da sociedade. Por mais voltas que se dê, existem apenas dois modelos de organização social ao dispor de qualquer povo, ou participam na governação ou são governados sem ter opinião. Para aqueles que como eu acreditam que é melhor termos voz, a resposta não é a abstenção. É precisamente o oposto.

O que muitos infelizmente não entendem é que quanto pior se pensa que o país está, maior motivação se deve ter para ir votar. Espantoso que perante uma escolha tão clara, simples e racional muitos continuem a decidir fazer precisamente o contrário.

Texto de: Fernando B. Dias

Veja Também

Uma silly season regionalizada

Findo o verão, e como consequentemente, a silly season (a época tonta, traduzindo o termo …

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *