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Regresso ao passado no futuro

Acredito que, ao lerem o título desta crónica, pensaram «lá está ele outra vez com as histórias do antigamente, estamos fartos daquelas historinhas do século passado». Tenho consciência dessa limitação, mas é mais fácil falar do passado do que tagarelar sobre o futuro, um futuro que raramente se concretiza daquele modo. Posso ilustrar esta minha afirmação com o visionamento de filmes de ficção científica em que tudo nos parecia moderno e agora, no nosso atual futuro, muito antiquado, com exceção do teletransporte.

Desta vez, vou-vos falar do futuro, não necessariamente do meu, mas do futuro de alguns de nós, com os olhos do passado. Parece um pouco confuso, mas, ultimamente, têm falecido algumas pessoas nonagenárias, na casa dos noventa anos, que, quando eu as conheci, já tinham a minha idade atual ou até já tinham entrado nos sessenta. Nessa época, em que eu ainda não tinha atingido os vinte anos, para alguns, e os vinte e cinco, para outros, eu era jovem e eles eram adultos ativos, já avançados na idade, mas com uma pujança social, cultural e intelectual assinaláveis. Acreditavam que tinham um papel relevante na sociedade e que o futuro decorreria numa sequência lógica do passado ambicionado, em que teriam um reconhecimento público do seu papel social de cidadania na nossa comunidade. Sobreviveram para além do último respiro, certamente na memória dos familiares mais próximos, mas também em outros com quem, num dado espaço e tempo, conviveram e foram felizes ou infelizes.

Ao escrever esta crónica, regresso constantemente a partículas essenciais da minha vida, aquelas que, até ver, perduram na memória, e reconheço alguns padrões de comportamento, meus e deles. Uma certa seletividade pela comunicação social escrita, radiofónica e televisiva, um reconhecimento mútuo, mas cuidadoso, do valor cultural e intelectual dos outros e uma vida de introspeção cada vez mais solitária e solidária. Uma elite cultural que tentou prolongar ao máximo o passado, tendo naturalmente consciência da velocidade do futuro. O dilema é exatamente esse, ficamos preguiçosos para correr com o futuro e acomodamo-nos ao nosso amado passado e ao sofá cá de casa.

Não temos paciência para ver, de pé, um bom espetáculo de música, idealizado para um teatro com lugares sentados e marcados, numa tenda de circo ou pior, porque as tendas de circo têm lugares sentados corridos, para o estimado público, e não apenas uma mão cheia de assentos para o executivo, nem para ir a salas de cinema desertas.

Curiosamente, ou talvez não, tenho por referência que aos meus trinta anos, em que estes nonagenários já eram todos sexagenários, a minha postura, não de inimizade, mas de descrença sobre as suas ideias, gerou um acentuado afastamento, eu ainda tinha futuro, eles começavam a regressar ao passado, numa cristalização das ideias e das ações. Não reconhecia inovação nas suas ideias ou ações e eu desejava futuro, rutura e novidade eram para mim propósitos de vida. Serei, provavelmente, um sexagenário birrento e desagradado com o futuro! Claro que eu acredito que não e que o meu pensamento, estado de alma e minha ação serão sempre futuros, mas, como diz o povo, «presunção e água benta, cada qual toma a que quer».

Neste momento, os meus colegas já só me indicam séries televisivas da rtp2, começo a reduzir o volume das rádios comerciais e dou por mim a ficar indeciso na compra de periódicos como a revista Ler. Ainda não sintonizei a antena2, nem fixei a rtp2 e adquiri o jornal de letras, mas ainda me faltam quatro anos para chegar aos sessenta. A partir dos cinquenta anos voltei a reavaliar as posturas e a restabelecer uma proximidade com estas pessoas, agora reconhecendo o que foram, na sua época, em relação a tantos outros que vivendo se limitaram a existir e a preservar a espécie, o que já não é nada mau. A arrogância não me fica bem, eu sei, mas a realidade da inexistência tem escurecido a minha forma de viver.

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