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Projetos de gente grande

Estive a ler há algumas semanas um artigo num jornal nacional sobre o fracasso da criação de uma “cidade do cinema” em Portimão. A iniciativa prometia milhares de milhões de euros em investimento e milhares de postos de trabalho para a cidade e a região. A edificação desta instituição elevaria Portimão e a região para a alta roda do cinema mundial; uma “Hollywood” europeia. A realidade esbarra na ficção e o projeto pouco deixou de concreto para mostrar, exceto no que toca a 4,6M de euros pagos pela autarquia em projetos e consultadoria.
Em vésperas de eleições e com a economia a espernear ligeiramente, a figura do “mega-projeto” assume um protagonismo perdido há alguns anos. Um pouco por todo o país surgem notícias destes planos, com a promessa de investimentos avultados e de postos de trabalho fartos. Para os decisores políticos, são apetecíveis. Trazem votos e anunciam uma solução simples para problemas complexos. Criam uma narrativa confortável para apresentarem aos votantes; de como determinado projeto irá propulsionar o concelho/região/país para a vanguarda da tecnologia e do desenvolvimento, culminando numa prosperidade nunca vista.

Naturalmente, o problema surge quando estes projetos deparam-se com problemas de execução, sendo que alguns nem saem do papel. Entretanto, já custaram milhões ao erário público sem que se traduzam no benefício prometido.

Porém, por essa altura, já terão cumprido o seu objetivo, enchendo os bolsos de alguns e servido como cavalos de batalha para eleições. Se todos estes projetos tivessem tido o impacto desejado, o nosso país estaria repleto de “Silicon Valleys”, “Hollywoods” e seriamos várias “Flóridas” da Europa.
Não me interpretem mal; penso que precisamos de projetos estruturantes. Há exceções. Há projetos que, caso fossem implementados, inevitavelmente trariam benefícios substanciais ao local onde se inserem. No entanto, o que se tem verificado nos últimos anos é que estes projetos são muitas vezes pensados e implementados “ad hoc”, sem qualquer contextualização ou consideração pelo mercado local ou condições do local. Dificilmente conseguiremos criar no Algarve, por exemplo, um centro de nível mundial para a indústria aeroespacial sem qualquer historial da região no assunto. Sem uma base propícia para a sua instalação, estas iniciativas (quando chegam a sair do papel, não posso deixar de frisar esta condição, dada a sua raridade) tem tendência a falhar espetacularmente. Mesmo quando estas infraestruturas são efetivamente edificadas, nota-se de que o trabalho de continuação é de difícil manutenção e a falta de inércia mata o projeto.

Dado o acima exposto, creio que será mais salutar deixar de dar tanta importância a estes mega-projetos e apostar em iniciativas mais pequenas e com impacto na vida das populações. Criar e manter infraestruturas de apoio à população, promover e criar condições para a atração de pequenas e médias empresas e ao empreendedorismo, e construir a partir dos recursos de que o local desfruta não tem obviamente o panache e o grau de notoriedade que os mega-projetos prometem. Não constituem alterações de paradigma nem prometem a transfiguração no melhor sítio do mundo. Não serão estes que farão do nosso concelho o melhor concelho do mundo.

Obviamente temos de começar por algum lugar. Comecemos com pequenas coisas e partamos para as maiores pouco a pouco.

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