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Na essência

Neste últimos dois meses, em que me ausentei desta escrita, senti que percorria os fios duma trama ou rede fina, podendo a qualquer momento desequilibrar-me e esvaziar-me de lucidez. A sincronização de acontecimentos nada relacionáveis engendraram uma enorme fadiga e um indispensável apego à objetividade para percorrer essa trama sem mergulhar na demência. Os meus pais ficaram em simultâneo a necessitar de permanente atenção, tolhidos de autonomia: as laranjas apodreceram no pequeno quintal de minha mãe, a única laranjeira ali plantada lastimou a sua ausência momentânea e a inexistência dos carinhos de quem sempre viveu a ruralidade; os jogos de futebol (especialmente do Sporting Clube de Portugal) retratam uma outra vivência, a do meu pai, na cidade industrial de Silves, onde nasceu e sempre viveu. Aos oitenta e um anos estará em Portimão.

Num desassossego constante tentei vestir a capa de super-homem e dar resposta a todas as solicitações pessoais, familiares, profissionais e sociais. Reduzi de forma drástica os agrados pessoais, mas ainda consegui ir, no horário da tarde, ver aqueles dois filmes (gafe monumental) galardoados com o óscar da melhor película e, em passo de corrida, Os Deolinda com uma corzinha de verão. Na essência recorri à objetividade e incorporei a alienação do discurso. Entendi uma ideia filosófica com mais de cinquenta anos que relaciona as doenças mentais com problemas de comunicação. Comunicar com o outro é improvável, buscar o entendimento do outro é um desafio comunicacional e social.

A comunicação está fechada no nosso entendimento, poderia dar-vos o exemplo da diversidade linguística, mas abordarei a questão com uma definição, uma imagem e uma provocação. Todos saberão o que é uma rosácea – vão circular situado geralmente na parte superior da fachada axial de uma igreja ou nos braços do transepto, em regra emoldurado e cujo interior pode apresentar decoração pétrea ou vítrea – no contexto da arquitetura, na essência um vão em forma circular. Todos imaginaram um estético vitral de forma circular com sublimes recortes. Na matemática, uma rosácea é uma figura com eixos de simetria por rotação, como a estrela do mar ou a hélice de um barco. A estética das estrelas (de cinco ou seis pontas) ou de um sublime pavimento árabe (ou imitação), como a parede da gare da estação de Silves, em que se multiplicam rosáceas, constitui algo de belo, prazenteiro para os nossos olhos, com numerosos acessórios.

Na essência as letras O e S (naturalmente que depende do tipo de letra) são rosáceas. No caso do O é uma rosácea diedral com reflexões e rotações e do S é uma rosácea cíclica apenas com rotações.

As vidas dos idosos retomam as vivências da sua meninice como o afago da sua existência, como se se despojassem de tudo e apenas restassem uns dias ensolarados da infância, infelizmente sem luar.

Nunca te esqueças que, na essência, um S é uma rosácea.

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