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Opinião

Os vendedores de sonhos

Teodomiro Neto
Última Atualização: 2016/Nov/Ter
Teodomiro Neto
10 anos atrás
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Assim começou no dia 14 de junho, o deslumbramento da FIFA ( Fédération Internationale de Football), em Saint-Etienne, cidade da Região Ronne/Alpes/França.
A Europa, mais do que outro continente, e Portugal, entre todos, esteve em “abuso” televisivo, mostrando a cidade do mártir, padroeiro de origem grega, Stephanes ( Saint-Etienne), o nosso Santo Estêvão, em tradução portuguesa. Assim explicado, como é devido, vamos ao conteúdo, nesse dia de arrepios antecipados, coordenados para o fim proposto.
Em excessos, em vendedores de sonhos e de magia, aos nossos emigrantes, em terras gaulesas, onde a maior comunidade estrangeira é a portuguesa, onde o ensino da nossa língua não tem sido praticado, tanto para os descendentes lusos, sem essa oportunidade, tanto quanto língua europeia, ao nível secundário e, mais além, como língua internacional.

Dizia que, nesse passado dia, 14 de Junho, a Selecção Nacional de Futebol de Portugal, defrontava a Selecção Nacional da Islândia. O resultado não me interessava para o fim deste escrito, mas recordar a cidade fresca, trabalhadora, onde o primeiro comboio se iniciou em França, no início do século XIX. Uma cidade de milhares de emigrantes da Europa mais pobre, como Portugal, Espanha e Itália e do Norte Africano. A cidade de Saint- Etienne onde milhares de portugueses chegaram em tempos difíceis, económicos e de liberdade, merecia
Mas as câmaras televisivas despejavam, durante horas, a mesma imagem aérea, ao estádio Geeffroy-Guichard, ou o caminho, para o transporte dos jogadores, nos 14 kms percorridos.
Eu sei que tudo tem um peso e medida. Por isso mesmo foram saturantes as constantes imagens vazias, de nada. Seria uma oportunidade para dar a conhecer essa cidade, sem Arco do Triunfo ou de Torre Eiffel, mas uma cidade do trabalho, das minas profundas de carvão, da metalurgia, da ciência, da música. A arte e a indústria dominaram em continuidade a cidade. Duas actividades tradicionais dominam a história industrial da cidade: a tecelagem, a mecânica, bicicletas, armaria, minas, etc. Atraindo, durante os séculos XIX e XX, multidões de emigrantes, onde a cidade acolheu toda a essa gente sem receios racistas, sem atentados à pessoa humana.
Após a segunda grande guerra mundial, Saint-Etienne recebeu multidões de trabalhadores, eles reconstruíram esta cidade desfeita pelos bombardeamentos. Eu sei, que por lá vivi, trabalhei e admirei a cidade de Jean Dasté, a grande figura da descentralização do teatro francês, nesse conhecimento e cumplicidades comuns. Dasté foi o meu Mestre na área teatral. Não sei se Genebra, Paris, Lyon ou tantas outras cidades me prenderam como a cidade dos Stephanois.
Porque dediquei em trabalhos e ensino, e demais serviços, à cidade, como uma cidade de acolhimento, cidade de cidadãos múltiplos, cidade de cultura viva. De cidadãos que respeitam quem contribui para o desenvolvimento cultural e económico, como social da cidade que sempre foi reconhecida do TRABALHO e da Liberdade.

No dia 14 de Junho de 2016, a euforia doentia de: vencer, vencer, no incógnito, no vazio do nada…
Dirão, nesse altruísmo de furacão: Mas ganhámos! Sim, numa euforia passageira, que se esgota numa epopeia de Piromania. Sabemos como funcionam certos clubes de futebol, mas essas congruências silenciosas que fazem, consentidas, uma civilização de interesses, de escândalos gratuitos e de milhões e mais milhões.
Se já não dá para pensar, dará para ver o que se passou recentemente no Brasil: os milhões nas construções dos chamados “elefantes brancos”, os estádios que passaram à inutilidade, à espera de serem destruídos.

Não devo esquecer Portugal de 2004, quando por cá se desenvolveu o europeu de futebol. Quantos estádios se construíram para servir os interesses da FIFA? Quantos “elefantes brancos” nos deixaram em dívidas insuportáveis?

Lembremo-nos de Faro/Loulé, nessa fronteira onde se construiu o estádio do Algarve. Para que nos serve, hoje?

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PorTeodomiro Neto
Natural de S. Bartolomeu de Messines, nascido em 1938. Concluiu licenciatura em História e o doutoramento em "História Política Europeia". Professor universitário, em França, ( entretanto aposentado), tem colaborado com diversos jornais nacionais e regionais. Tem publicadas várias obras no âmbito da história regional, teatro e romance. Entre outras distinções recebeu a Medalha de Mérito Ouro da Cidade de Faro.
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