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Silves – 1937

Há 79 anos ( 1937), Pedro Mascarenhas Júdice, um cidadão da antiga capital do reino do Algarve, publicava um interessante opúsculo, em bilíngue, português e inglês, que intitulou: “Silves e seus Arredores” = “Silves and its Surroundings”. Digamos que se dedicava aos turistas estrangeiros. Era uma novidade para a época.

O texto-guia de 18 páginas faz um interessante percurso pela cidade de Silves: sua história e sua monumentalidade, sendo a Sé e o Castelo as principais atrações do opúsculo: “Vamos dizer algumas palavras de Silves sob o ponto de vista turístico: Duas vias conduzem principalmente a Silves: o caminho de ferro e a via fluvial. Há também numerosas estradas alcatroadas. Partem diariamente quinze camionetas de Silves para diferentes pontos da província, chegando outras tantas.livro-pedro-judice
Pelo tempo da floração das amendoeiras a estação de Silves é a primeira a receber a grande quantidade de forasteiros que ao Algarve vêm gozar o inebriante espectáculo das amendoeiras cobertas de flores, semelhando neve numa província, onde ela raramente se vê. (…) Há quem prefira a via fluvial, por achá-la mais poética. Para isso temos o rio Arade, a tranquilidade das águas que enchem as margens pelas marés cheias. Nesse passeio fluvial há o souvenir poético dos poetas antanhos.

De Ibn Qasi: Retesa o sonho no arco da nobreza/ E lança setas letais sobre o inimigo / Com tuas mãos protege Silves / Chão de pomos, cidade primorosa.

A propósito, tomámos a liberdade de transcrever do nº 135 do “Diário da Tarde”, o seguinte da autoria do sr. Matos Sequeira, presidente da Associação dos Arqueólogos:

«Chegados à confluência da ribeira do Odelouca – como é lindo este nome! – o aspecto do rio muda de repente. Atraz da corda de colinas recobertas de arvoredo ergue-se, como fundo teatral a Serra de Monchique. Uma ilhota coroada ao alto por umas paredes esboroadas, obriga-nos a uma volta encantadora e depois o rio estreita de súbito, apertado entre as margens, mais altas agora, bordadas de alfarrobeiras ramalhadas e de amendoeiras pequeninas e frágeis. A melhor surpresa, porém, surge, quando no torcer da outra volta, se defronta o panorama de Silves. Parece uma cenografia de Manini! As restingas arborizam-se. Pomares de laranjeiras e romeiras – o fruto ainda verde – descem até à corrente da água. Navega-se entre os frutos. A horta de Mata-Moiros parece o jardim das Hespérides, com recantos misteriosos, lagos reflectindo o verde plangente dos chorões, caramanchões floridos, bosques de nespereiras. Mais uns esticões do barco a gasolina que reboca o escaler e eis-nos atracados ao caes. A cidade das moiras encantadas vai deixar-se desvendar. Penetremos nela.

Dividamos as partes em que Silves e o que em Silves tem interesse turístico: o antigo e moderno. Do antigo temos a Sé (Monumento Nacional – 1910 ), que não foi mesquita árabe, como muitos autores afirmam. Está em reparações dirigidas pelos srs. Arquitectos Couto e Jorge Bermudes. É construída em estilo gótico com a pedra a que os de Silves chamam pedra ruíva e os mineralogistas grés de Silves, pedra bem característica da região, e que por esse facto devia indicar ao construtor de prédios em Silves, a côr que para os mesmos devia empregar que simultaneamente livraria o transeunte da acção dos raios solares, incidindo sobre o branco, são reflectidos na sua totalidade. A poente está a porta ogival, em arquivolta, com dois botaréus. As duas torres laterais não parecem ser de construção primitiva. A abside examinada exteriormente representa magnífico trabalho artístico com botaréus quadrados, ameias em pirâmide, gárgulas de formas caprichosas, etc. No transepto, ao sul, vê-se uma grande janela ogival, tapada em parte pela nova sacristia no lado exterior. As capelas terminais parecem não ser da construção primitiva. Tanto estas como a capela-môr têm arcos de gótico florido. Tem muitas inscrições esta igreja, das quais a principal é a referente a D. João II ao meio da capela-môr.
O Castelo ( Monumento Nacional- 1910) recorda os domínios romano e árabe que terminou em 1189, ajudados por uma armada de Cruzados que se dirigia à Palestina, da qual faziam parte Alemães, Ingleses, Flamengos e outros.
A Cruz de Portugal ( Monumento Nacional) . A Igreja dos Mártires. A Igreja da Misericórdia.
A Ponte parece ser do tempo dos Árabes; pelo menos nas pedras das suas abóbodas, denuncia-se a época medieval pelas siglas. Os velhos Paços do Concelho que assentam sobre um antigo torreão e a Porta da Cidade, que debaixo dos mesmos fica, têm interesse histórico. Por cima da porta daqueles vê-se um escudo português de 11 castelos. A Levada do Moinho da Porta tem interesse histórico, porque é o canal das águas a que se refere o cruzado, autor da narrativa da conquista de Silves.

A cidade, principalmente ao norte, encontra-se salpicada de restos de antigas fortificações, que deviam ser protegidas e respeitadas carinhosamente.
Há belos edifícios particulares, como as chamadas Casas Grandes e o prédio mandado construir pelo 3º Visconde de Lagoa, projecto do arquitecto italiano Nocola Bigaglia. Tem trabalhos do notável pintor Salgado.
Há um bonito jardim, próximo do vasto campo murado, onde se efectuam as feiras ( 31 de Outubro e o 3 de Maio e os mercados/ 3º domingo de cada mês) e diferentes largos arborizados. A actual Comissão Administrativa projecta arborizar diferentes ruas e lagos. Tem água canalizada, iluminação eléctrica e rêde telefónica. Tem campo de ténis e de futebol, pensões, cafés, diferentes sociedades de recreio e desportivas, muitos automóveis de aluguer e particulares, tabacarias, livrarias, biblioteca municipal, teatro e cinema. Tem dezenas de fábricas de cortiça e alguns lagares de azeite. Tem hospital que é um dos melhores da província e anexos dois asilos para inválidos dos dois sexos.
As ruas não têm muito movimento, porque durante o dia grande parte da população trabalha nas fábricas e os passeantes são poucos.
Vale a pena dar um passeio até à Fonte do Falacho, a dois kms a Oeste de Silves. O caminho que, junto à ponte, vai contornando o rio Arade na sua margem esquerda, passando pela Fragura, nascente de água que abastece Silves.
Terminamos com as seguintes palavras que se lêem na página 143 do Guia Português de Turismo (1933), dirigido pelos srs. J. F. Fernandes Nunes e Amadeu Pereira: Silves tem panoramas adoráveis, cheios de verdura e arvoredo, contrastando com as trincheiras de grés avermelhado que dão à região um aspecto imprevisto cheio de côr e carácter”.

O Opúsculo de Pedro Mascarenhas Júdice, sintético, em laivos bairrista, mas que nos dá um testemunho de Silves dos anos 39 do século passado. São postais a preto e branco de um cidadão, em olhos postos para um seu passado generoso, mas de interesse nesta terceira década do século XXI.
Silves teve, nessa década, repórteres bem vincados, desde o jornalista Julião Quintinha ao historiador Garcia Domingues. Cada qual nos seus contextos.

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