“De tudo o que abril abriu, ainda pouco se disse”, diz o conhecido poema de José Carlos Ary dos Santos. O poeta não só da revolução, mas também da inquietação manifesta, aquela que não se cala, nem se esconde.
A poucos dias de termos comemorado mais um aniversário do 25 de Abril e o 1º de Maio e em campanha eleitoral para eleições legislativas e autárquicas, seria bom dedicarmos algum tempo para uma breve reflexão sobre o caminho que percorremos e o que desejamos para o futuro.
Não há já dúvidas que a extrema direita, na sua versão mais parlamentarista ou arruaceira, está determinada a conquistar adeptos, recrutando entre muito jovens, como esta semana foi divulgado, e reabilitando os mais velhos, alguns com ligações a movimentos terroristas, ligados a atentados bombistas no pós 25 de abril. Tudo isto num quadro de complacência beatífica que faz escola entre os seguidores do atual primeiro ministro, convencidos porventura que é a cantar com Tony Carreira nos jardins de um palácio que se ganham eleições e se vencem inimigos de todos os valores democráticos – exceto daqueles que lhes permitem ter voz pública e garantem tolerância por parte das autoridades.
Não é a altura de sermos complacentes, nem de perdermos de vista o essencial: que país queremos, que país precisamos para garantir as melhores condições de vida ao maior número de pessoas. E não falo só de salários dignos. Falo de um dinheiro extra para viajar, para comprar livros, para ir a espetáculos. Para poder comprar um casa sem ter que desistir de tudo o resto. Falo de acesso rápido e atendimento de qualidade no Serviço Nacional de Saúde. Falo de uma reforma tranquila e com a mesma tranquilidade ter um filho a frequentar o Ensino Superior, sem que toda a família tenha que passar por apertos financeiros.
Falo – e sonho – com um país que não seja tão amargamente caracterizado por enormes – e crescentes – desigualdades sociais.
No dia 25 de abril de 2024, tal como no dia 25 de abril de 2025, multidões de todas as cores e idades saíram à rua. 25 de Abril, Sempre! Viva a Liberdade! Viva a Democracia!
Foram manifestações com um significado muito para além do habitual. Foram pessoas, de diferentes credos e convicções políticas, que quiseram marcar uma posição, quando há muitos a entoar “oh tempo, volta para trás”…
O que se passa em muitos países da Europa, e principalmente quando vemos o que se passa nos Estados Unidos, com um presidente que em meia dúzia de semanas está a lançar o país para a ditadura de um só homem todo poderoso, que até a história está a reescrever, e já começou a censurar os meios de comunicação social, deve servir como um grande alerta.
Ah, aqui isso não vai acontecer, pensamos. Aposto que uma grande parte dos americanos pensava da mesma maneira há poucos meses atrás. Pensavam que a democracia tem meios para se defender, regras para cumprir. Só que o impensável está a acontecer.
O impensável espera por nós, todos os dias. Nós é que não pensamos nele. Há poucos dias tivemos um apagão. Impensável. E fomos deixados à deriva, cada um entregue ao seu bom senso, autoridades desgovernadas, cidadãos que de repente assimilaram o que já sabiam, que estamos profundamente dependentes das tecnologias e que quando essas falham o nosso dia a dia desmorona. E agora andamos todos em estado de alerta porque afinal até grandes hospitais não têm condições para ultrapassar estas situações, as autoridades não têm sistemas de comunicação de emergência que funcionem, o governo foi reunir mas esqueceu-se de falar aos cidadãos, estes, por sua vez, fizeram uma nova corrida ao papel higiénico (o que dirão um dia, as gerações futuras, desta histeria coletiva?) e esgotaram prateleiras de supermercado porque, afinal, não faziam ideia do que se estava realmente a passar e quanto tempo duraria.
A nível local, também ficaram patentes muitas fragilidades que urge corrigir, como a ausência de geradores em serviços públicos que possam garantir alguma funcionalidade e dar tempo de se tomarem medidas mais adequadas. Há muito pouco tempo, alertei, neste mesmo espaço, para a necessidade de se atualizar o Plano Municipal de Emergência. Proponho que se acrescente a esse trabalho, a verificação das condições de funcionamento dos serviços públicos essenciais, em caso de um apagão desta natureza. Que, como afirmou o presidente da REN, pode acontecer a qualquer momento, embora não seja expetável.







