Há um ano, assistíamos à imagem do Primeiro-Ministro António Costa a perguntar à presidente da Comissão Europeia Úrsula von der Leyen, “se já podia ir ao banco”, como se fosse um miúdo travesso a quem tinham dado permissão para ir à loja de doces. Iríamos receber “uma bazuca” de dinheiro, tanto dinheiro que não saberíamos o que fazer com ele.
A questão do que fazer com o aeroporto de Lisboa tem décadas; face à incapacidade de expansão do Aeroporto Humberto Delgado (também chamado de Aeroporto da Portela), foram colocadas em cima da mesa nada menos do que 17 propostas de instalação de novo aeroporto. Os candidatos mais recentes são Montijo e Alcochete, com ambos os locais a apresentarem vantagens e desvantagens. Montijo necessita de menos investimento em virtude de já ser uma pista de origem militar, mas encontra-se situado em pleno estuário do Tejo, com extensas consequências ambientais e sem falar da previsível inundação da pista até 2080, em virtude das alterações climática. Alcochete requer um investimento avultado, em virtude de construído de raiz e de necessitar de infraestrutura complementar, tal como uma terceira travessia do Tejo. A discussão arrasta-se, com intervenção de uma panóplia extensa de agências e câmaras municipais. Antes das eleições, fora firmado um consenso entre PS e PSD para o estudo das alternativas, e de uma avaliação ambiental estratégica para o projeto.
Ora, com os bolsos cheios de dinheiro europeu, o governo decidiu fazer a quadratura do círculo e arranjar uma solução que deixasse todos contentes: porque fazer um aeroporto, quando podemos ter 3? A solução é fácil: gasta-se 300 milhões de euros em obras no Aeroporto Humberto Delgado para resolver os problemas imediatos de falta de capacidade; mais 600 milhões de euros são gastos na construção de um aeroporto lowcost no Montijo até 2026, para apoio do A. Humberto Delgado; e finalmente, torramos 4 ou 5 mil milhões de euros no novo aeroporto de Alcochete. Quando este estiver feito, em 2035, desmantela-se o Aeroporto Humberto Delgado, e presumivelmente, o de Montijo, deixando Alcochete como a infraestrutura aeroportuária de Lisboa.
Se está a ficar com a cabeça à roda com tanto milhão, não é o único. 5 mil milhões de euros é muito dinheiro para gastar num aeroporto, especialmente tendo em consideração que o Aeroporto de Beja custou uns “parcos” 35 milhões. A ideia de gastar 600 milhões de euros, seja de onde vier o dinheiro, em infraestrutura temporária que servirá apenas uma década parece-me, seja qual for o prisma, uma gestão pouco racional dos recursos públicos. Nem com dinheiro do Monopólio haveria tanta leviandade.
Mais, a construção do Aeroporto do Montijo, mesmo que seja só por uma década, terá custos ambientais extensos, que seguramente se prolongarão para lá da década que operar. E quanto à Portela, que representa uma infraestrutura usada há décadas, preparada e planeada para o uso de aeroporto, o que se fará após o seu encerramento?
Tudo isto é feito ao arrepio do “acordo de regime” celebrado na legislatura anterior, desrespeitando promessas anteriores. Sublinhe-se a forma ligeira como se alteram planos delineados anteriormente, que tiveram por base extensas e morosas análises efetuadas ao longo de anos, para simplesmente, quase num capricho, mandarmos tudo para as urtigas e apresentam-se 3 aeroportos da cartola.
É o problema das lojas de doces; demasiados docinhos levam a dores de barriga; talvez seja melhor comprar menos doces.
PS: Já depois de escrever estas linhas, foi publicado um comunicado do Primeiro-Ministro a revogar o despacho sobre a solução aeroportuária para a região de Lisboa, frisando que é necessária uma decisão “negociada e consensualizada com a oposição”. Aparentemente, alguém tem bom senso e compreende a necessidade de cumprir o acordado, mesmo que hajam algumas fações no Governo que achem que podem fazer o que lhes der na gana. Menos mal.







