A vitória não traz louros. Ajunta mais trabalho. A derrota não envergonha. Provoca acentuado arrefecimento noturno.
A 26 de setembro, a pastoral da falsa virgindade não deu frutos. Berrar mais forte não excita os frígidos. Falinhas mansas untuosas podem ter boa vista-rio, mas não saltam margens. A vender verbo e ilusão fica-se em terra. A camionete do futuro nunca passa. A realidade não se dobra a um capricho. Muito menos ao ressaibo.
A desmemória é o ermo onde germina a impiedade, a indiferença e a pouca vergonha. Como também tem vida longa, regressará daqui a quatro anos.
A vitória sabe a mel. A derrota a fel. É desejável um gosto comum, agridoce, para vencedores e vencidos. Não enjoa. Não engorda. Trava a fome canina. A fome tão má conselheira.
Desmontada a tenda, eleitos e não eleitos voltam a ser semelhantes. E só devia restar um jeito de viver. Colaborar em vez de encanzinar. Nem soberba de um lado, nem ressaibo do outro.
O que se espera de quem governa é que resolva problemas. Que olhe por quem mais precisa de conforto e luz. Que abra caminhos. Que tente cumprir o prometido. E que bem explique se o não conseguir. Que se dê a quem governa o benefício da dúvida. E que se duvide do benefício.
O que se espera de quem alimentou públicas esperanças não é que as regurgite. É que critique e proponha soluções melhores. Que ajude a administrar. Ajudar não ofende.
A pandemoníaca, durante um ano e meio, revolveu-nos a vida. Fechou-nos no domicílio. Fez de cada um de nós um pivot postiço de um interminável telejornal. Voz metálica e sorriso plastificado, fomos trabalhando em casa, enquanto a panela estava ao lume. A sopa esturricou. Regressemos ao lume brando da esperança.
Finalmente entrevê-se uma coisinha corriqueira que não dávamos por ela – a normalidade. Não fossem os profissionais do serviço nacional de saúde e os eleitos do poder local, ainda estaríamos a contar máscaras cirúrgicas e a lamentar muitas mais ausências e missas de sétimo dia.
A cidadania é vigil. Não devia dormitar e abster-se. É claro que sabe melhor estar do lado dos vencedores do que dos vencidos. Mas espero nunca abdicar da minha ínclita missão. Nascido para chatear. Não para mim. Para todos. Com lisura e afeto.
Duas coisas me calam fundo e falam alto. Memória e futuro. O património histórico urbano, onde mergulham as nossas raízes seculares, que não tarde a ser bem recuperado. E a cultura e a arte, do popular ao erudito, que expluda para que a viagem da alma seja longa e rica. E tanto que ficou por fazer. E tanto que há para inventar. Os vizinhos podem crescer connosco. E nós com eles.
A nossa terra, de berço ou de acolhimento, merece os nossos olhos abertos. E as mãos firmes do nosso engenho e vontade. Para que não tarde a assomar a furtiva lágrima do orgulho. Pelo feito. Bem feito.







