O verão traz consigo este estado de alma… há uma outra leveza, nas roupas, na alimentação, nos horários… Há o sol, o mar, os turistas, as visitas de quem vem de férias, as esplanadas e uma infinidade de elementos que tornam os dias mais luminosos.
Esta leveza transmite-se à vontade de escrever. Este pensamento/sentimento atrapalhou-me, na escolha do tema para este mês.
Pensei em escrever sobre a opção do Governo em iniciar a sua legislatura colocando como prioridade a questão dos imigrantes, a nacionalidade e o reagrupamento familiar. Este aspeto, em particular, chocou-me, pelas dificuldades que levanta às famílias. Não há pessoa da minha geração que não tenha tido um familiar ou amigo emigrado em França ou Alemanha, com filhos deixados para trás, aos cuidados dos avós, enquanto os pais se esfalfavam para reunir as condições para os levar para junto deles. E que alegria era, quando isso acontecia!… A crueldade de uma legislação aprovada à pressa e com muito pouco de racionalidade, a tentar agradar a uma direita que nunca ficará satisfeita, porque se alimenta precisamente da irracionalidade, deixou-me estupefacta.
Mas, não querendo desenvolver, nos dias de leveza, um tema tão pesado, pensei em escrever sobre um assunto regional, mais simples.
Verão+ Algarve = Turismo. Parece um tema bom, considerei. Afinal, a região regista prémios atrás de prémios, temos praias na lista das melhores do mundo, gabam-se os nossos areais, a qualidade das nossas águas, e etc, etc… Mas lembro-me que o Algarve é das regiões que mais precisa “deles”, desses que trabalham em todo o lado, maioritariamente nos trabalhos que os nacionais não querem, por salários que muitas vezes não chegam aos mínimos. E vem logo à cabeça as condições em que a maioria habita… e as casas que os jovens não conseguem comprar… E acabo por me lamentar porque o Algarve é a segunda região do país com a habitação mais cara e uma das que tem piores serviços de saúde públicos… E, porra!, das que tem maiores índices de abandono escolar e de pobreza!…
(Pausa mental)… tento elevar o pensamento, para a ideia que abriram novas rotas aéreas no aeroporto de Faro, que o mercado americano está com todos os olhinhos virados para a região e que os empreendimentos de luxo, do mar à serra e vice-versa, não atravessam qualquer crise… nem aqueles que crescem em áreas “protegidas” (não se sabe é por quem).
Profundamente arrependida de me ter deixado enlear neste assunto nada veraneável tento focar-me… pensar num assunto… local e simples.
Neste tempo de verão, a ideia vai automaticamente para a praia de Armação de Pêra… Mas a grande discussão destes dias é a abertura do parque de estacionamento privado no antigo Campo de Futebol “As Gaivotas”, que foi construído com o esforço da população, num terreno que depois passou a ser considerado privado, bem como uma fatia da praia e zona de equipamentos públicos. Um processo que mereceu na altura (2012) a aprovação da Câmara Municipal de Silves (que hoje contesta); e a oposição da Junta de Freguesia de Armação de Pêra que mais tarde (e até hoje) deixou de defender que esta propriedade “privada” pertence afinal ao domínio público.
Em documentação da Câmara Municipal de Silves, assinada pelo presidente Rogério Pinto, em março de 2013, resulta que, das conversões com o proprietário, este iria doar duas partes do prédio ao Município de Silves e outra à Agência Portuguesa do Ambiente, em troca de direitos de exploração de estabelecimentos comerciais. Doze anos depois, é o que está à vista de todos. O proprietário há muito que vem explorando os estabelecimentos comerciais, as doações não foram feitas e o parque de estacionamento público que o PROT-Algarve previa para aquele lugar, abriu no dia 1 de julho de 2025, como um equipamento privado… O que criou uma nova polémica sobre os preços praticados e levanta de novo a questão sobre como é que se chegou até aqui, sem a oposição de entidades que tinham/têm/terão como missão defender o interesse público – o de todos.
Aqui chegando… ao fim de quase 5000 caracteres, assumo, caro leitor, que me afastei da leveza que pretendia…
No verão, qualquer pessoa sabe isto, o que cai bem, é encher os espaços noticiosos com os chamados faits divers, coisitas que não têm grande interesse mas que também não incomodam… Artigos que não colidam com as inúmeras festas e eventos que vamos ter na época balnear.. e com as inevitáveis publicações de celebridades que virão “descobrir” algum bocadinho do nosso pedaço de terra e “revelá-lo” ao mundo… na competição pelas fotografias mais impactantes nas redes sociais…
Acho mesmo que devia procurar faits divers… Mas fica para a próxima. Este mês já não tenho espaço. Desculpem qualquer coisinha… depois das férias espero vir com temas mais levezinhos…
Bom Verão a todos!


