No mês de fevereiro, num espaço de poucos dias, o concelho de Silves registou dois sismos de fraca intensidade e um tornado bastante mais violento. Os sismos não foram sentidos pela população, mas o seu epicentro foi a 25 quilómetros da cidade de Silves, na falha de São Marcos da Serra que se estende a São Bartolomeu de Messines. Estas freguesias foram também atingidas pelo tornado, que provocou estragos em habitações e campos.
Falando com um e com outro, sobre estes fenómenos da natureza, que não poupam ninguém e que são imprevisíveis, mais tarde ou mais cedo, ouve-se a pergunta: e se fosse a sério? É, na verdade, uma pergunta retórica porque todos sabemos que não tem resposta. Mas ficamos a pensar.
Por aqueles dias também houve um sismo em Lisboa, os canais televisivos não pouparam esforços para falar do assunto até à exaustão. No meio de tudo isso, apanhei uma dica preciosa. Em caso de catástrofe é importante que a população se dirija para as chamadas ZCL – Zonas de Concentração Local, que são espaços considerados mais seguros e com as condições mínimas para responder às primeiras necessidades. É também aí que os meios de socorro se devem agrupar e dirigir as respostas de auxílio.
Que no caso de uma catástrofe natural haja um sítio, um ponto de referência, onde eventualmente haverá atendimento e ajuda, parece-me uma ideia excelente, tanto mais que nos encontraremos num estado que nem desejamos imaginar… O problema é que, falando com um e com outro, não encontrei uma única pessoa que soubesse identificar a ZCL mais perto da sua habitação.
Imaginando alguns locais prováveis, mas querendo ter a certeza, dirigi-me ao site da Câmara Municipal de Silves, para consultar o Plano Municipal de Emergência de Proteção Civil de Silves. Primeira constatação: o plano é datado de novembro de 2012 e embora no fundamental se mantenha atual, salta à vista que há pontos que têm de ser atualizados e corrigidos.
Passo por várias páginas, encontro a enumeração dos riscos naturais que podem atingir o concelho. A saber: sismos, tsunamis, queda de arribas, cheias e inundações, movimento de massas, ventos fortes, tornados e ciclones, secas, ondas de calor, vagas de frio, incêndios florestais. Assim de repente só não me lembro de casos de movimento de massas, de todos os outros tenho registo na memória, avanço para as ditas Zonas de Concentração Local (ZCL) que o documento diz que encontrarei na III Parte – Ponto 5.
Ei-las: Parque de Estacionamento do Sítio do Encalhe, em Silves; Rua João de Deus, em S. Bartolomeu de Messines; Parque Estacionamento da Casa Mortuária em Armação de Pêra.
As ZCL de Silves e Armação de Pêra fazem sentido, mas nunca na vida iria considerar a Rua João de Deus, uma das principais artérias da vila, com prédios de ambos os lados, constantemente congestionada de veículos estacionados e em circulação, como um lugar de concentração e seguro… talvez na zona do jardim, junto ao quartel dos bombeiros… mas aí a população iria certamente atrapalhar e prejudicar as movimentações dos meios de socorro…
Para mim, o Parque de Feiras e Exposições de SB Messines teria as condições definidas para ser uma ZCL: “instalações sanitárias, locais amplos para distribuição de colchões, bons acessos e parqueamento”. Mas no plano de 2012 ainda não existe tal área, apenas a “cerca da feira”.
Páginas mais à frente, o referido plano de emergência indica outras áreas de potencial acolhimento da população, nas várias freguesias, como as escolas e os estádios municipais. E no papel tudo parece bem arrumadinho. Mas volto à questão anterior. E se um desastre natural de grandes proporções, como aqueles que os nossos antepassados vivenciaram, ocorresse agora?
Além dos três movimentos que ouvimos repetidamente para fazer em caso de sismo: Baixar; Proteger; Aguardar; o que sabemos nós? Que informação/ educação nos foi passada? Se um sismo potente, com epicentro a sudoeste do Cabo de São Vicente, provocasse um tsunami, a onda chegaria à nossa costa em menos de 15 minutos e não se ficaria por aí, indo afetar as ribeiras de Alcantarilha, de Espiche, de Odelouca e o rio Arade. As consequências poderão ser devastadoras, dependendo da intensidade do sismo, da preparação que tenhamos para lidar com a situação e da má sorte de cada um.
Não há muito tempo uma reportagem da RTP dizia que a grande maioria das câmaras municipais não tinha os planos de emergência municipais atualizados. Na azáfama do dia a dia é compreensível que certos assuntos caiam para segundo plano. Lá dizem as pessoas, só se lembram de Santa Bárbara quando há trovões.
Mas tão importante quanto ter o Plano de Emergência Municipal atualizado será passar a informação fundamental à população, dar a conhecer os procedimentos e as áreas definidas como Zonas de Concentração, instalar sinalética nas mesmas, divulgar a existência dos locais de acolhimento definidos.
Nada disto impedirá a ocorrência dos desastres. Mas poderá ajudar alguém numa situação desesperada.






