De vez em quando volta à baila a temática do desassoreamento do Rio Arade. Desta vez, o pretexto foi o Dia Mundial dos Rios, data escolhida pela associação Grupo Amigos de Silves.
Nos últimos 40 anos, o desassoreamento tem sido debatido até à exaustão e os anúncios desta operação foram vários. Se consultarmos as edições do Terra Ruiva até cansa contar quantas vezes escrevemos sobre o que não se concretizou…
Apesar de se falar em valores ambientais, o propósito principal de tanta ambição foi sempre o mesmo: trazer (MUITOS) turistas à cidade. Falamos de uma época em o turismo, no Algarve, não passava de uma só ideia: sol e praia. Assim, Silves marcava passo, lutando contra a sua interioridade e sonhando com esse turismo massificado que nos parecia progresso.
Hoje, no entanto, o que temos no Algarve é uma realidade quase sempre feia, produzida em grande parte por esse mesmo turismo. No interior dos ricos hotéis ou dos aldeamentos decadentes, o que encontramos é salários baixos, precariedade, exploração desumana de imigrantes, ausência de expetativas a nível profissional.
Hoje, aquele tipo de turismo por que ansiávamos, é cada vez mais repudiado. Muitos destinos turísticos impõem limites de entradas e há cidades a proibir os navios de cruzeiro, de onde, numa só golfada, emergem milhares de pessoas.
A nível ambiental, as consequências de apostar na construção massificada também são bem conhecidas de todos nós – basta percorrermos o nosso litoral. E não são poucas as vozes avisadas que nos alertam para a perigosidade de sermos uma região economicamente dependente de uma só atividade, flutuante, imprevisível, sujeita a muitos fatores externos e até a “modas”.
Encarar o desassoreamento do Rio Arade com o espírito dos anos 80 do século passado é um erro colossal. Assim como defender a concretização do mega projeto imobiliário que se projeta para a Praia Grande, entre a Lagoa dos Salgados e Armação de Pêra, com hotéis, aldeamentos, espaços comerciais e campo de golfe (mais um!). Lembro-me que à data, em 2012, quando o executivo da Câmara Municipal de Silves e a Assembleia Municipal de Silves aprovaram o projeto, um dos grandes argumentos era a criação de empregos …. à boca pequena acrescentava-se mais um: os milhões que a Câmara Municipal iria cobrar em licenças…
Permitir hoje em dia que se construa este tipo de mega empreendimento, no mesmo modelo que se repetiu até à exaustão no Algarve (e, infelizmente, o País cita logo o exemplo de Armação de Pêra) representa não só uma incapacidade de aprender com os erros, mas também um crime contra os valores ambientais que somos obrigados a preservar (e já vemos as consequências de não o fazermos, com as alterações climáticas!).
Daí que seja de sublinhar a coragem do executivo de Rosa Palma em travar a construção desse empreendimento, mesmo com a ameaça das empresas promotoras de exigirem uma indemnização de milhões. Porque há princípios dos quais não devemos abdicar, valores que temos de defender, território e natureza que não se devem vender.
Desassorear o Rio Arade, sim, mas que seja por razões ambientais e não focadas neste turismo que não se deseja, um desassoreamento que permita que pequenas embarcações cheguem à cidade, com poucas dezenas de pessoas que se encantem quando a curva do rio revelar a cidade.
Para quem está atento às tendências do turismo no Algarve não há dúvidas de que a cidade de Silves tem chamado a atenção de um número crescente de turistas e de investidores, mas não só. Há também artigos em sites, jornais e revistas fazendo referências elogiosas à cidade. Há dias a versão espanhola da revista de viagens, Condé Nast Traveler, publicou um artigo “Escapada a Silves, la antigua capital del Algarve” em que recomendava esta cidade, destacando-a pela sua beleza intemporal e pela sua história tão rica.
Não nos iludamos. Campos de golfe e empreendimentos turísticos é o que mais há. Todos iguais, com o mesmo tipo de oferta, no Algarve e pelo mundo fora. Mas não é isso que o verdadeiro turista procura. Não é isso que o vai deixar arrebatado, com os sentidos plenos, com o sentimento de estar a ver uma coisa única.
O que o turista irá levar de Silves é o calor da pedra quente e vermelha do Castelo, a solenidade da antiga sé/mesquita, o espreitar do rio entre as ameias.
Há que ter coragem para abandonar, lá no passado, os antigos projetos, os modelos repetidos milhares de vezes. Olhemos para o presente que nos pede novos olhares, diferentes perspetivas do mundo em mudança. Temos em mãos uma jóia poderosa, feita de beleza e de história, de pessoas amigáveis e ruas íngremes, de um passado com muitas camadas, quase todas elas ainda por explorar.
Do passado faça-se o futuro. Sem nos esquecermos quem somos e mantendo o nosso território como um espaço único e diferenciado.
É velho aquele ditado de Heraclito, “a mesma água do rio nunca passa duas vezes por baixo da mesma ponte”.








A citação de Heraclito não está certa.
A citação correta foi citada por Platão Cratyle, 402a.
A frase correta é em Português: ” Não se pode mergulhar 2 vezes no MESMO rio”.
Bom artigo, obrigado.
Vivo em Armação de Pêra por isso compreendi bem o que escreveu.
De quem é a culpa…. ?
Na Córsega por exemplo nunca teria acontecido! Certamente sabe por quê….