Nas terras da América do Norte, existe uma expressão com o mesmo sentido do nosso morrer na praia, relacionada com o cinema: Morreu no chão da sala de montagem.
Esta ideia é apropriada quando iniciamos este mês de fevereiro e as promessas e os desafios do Ano Novo já, há muito, caíram no esquecimento das rotinas diárias. Pelo menos ainda existiram enquanto foram idealizadas, enquanto, porventura, foram rabiscadas numa agenda ou em outro suporte tecnológico, sinais do tempo, ou mesmo fílmico ou sonoro.
Quantos projetos ou desafios iniciamos numa data especial e deixamos expirar passados alguns dias, às vezes até em algumas horas, sem aquele sentido de urgência que nos ocorreu no momento de prometer a nós próprios e ou aos outros que, daquela hora em diante, o nosso foco é no futuro.
Gostava de vos falar do “O Sol do Futuro” (2023) de Nanni Moretti, particularmente dos ses deste filme que me transportou para uma hipótese de futuro socialmente digno em torno do socialismo, verdadeiro, sem as peias do socialismo democrático nem as ditaduras de estado das experiências socialistas.
Alguns apontamentos trespassam o filme, como o rasgar do Josef Stalin num cartaz em que surge irmanado com Vladimir Lenin, mas existem duas cenas muito díspares que são um murro no estômago ao espectador que já consumiu inúmeros filmes de ação e ou que, em algum momento, desejou que os seus líderes fossem puramente socialistas ou comunistas.
Um jovem cineasta filma uma banal (é verdadeiramente a palavra) cena de fuzilamento em que um jovem de joelhos é morto a tiro na cabeça. Moretti interrompe a cena para explicar que aquele ato violento já não o é, por ter sido banalizado pelo cinema. É, hoje, um divertimento, de apenas alguns segundos. A violência é, num filme, a agonia de alguém, durante alguns minutos, até à sua morte trágica, de modo que o espectador seja agredido pela brutalidade, reproduzindo uma verdadeira repulsa à crueldade.
O se deste filme questiona a história, as opções em alternativa no momento de aceitar ou rejeitar um ideia de futuro, um sol de futuro.
E se o PCI (estamos com este cineasta em Itália) criticasse a incursão soviética na Hungria de 56, ou na Checoslováquia de 68 (acrescento eu), e assumisse a escolha genuína dos comunistas de boa vontade em defesa da dignidade social e política dos povos? E se alguém, como este cineasta, disser, em bom tom, que o que fracassou foram os processos, não foram as ideias?







