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História & PatrimónioSociedade

As duas imagens de Santa Justa, na igreja de Messines

José Manuel Vargas
Última Atualização: 2024/Abr/Qui
José Manuel Vargas
3 anos atrás
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Em 2015, no decurso de trabalhos de arrumação e limpeza de uma área da igreja matriz, atrás do altar-mor, foi encontrada uma antiga imagem de santa, em madeira, que, por se encontrar mutilada (falta da mão direita e do braço esquerdo), não foi possível identificar e se recolheu na sacristia, onde actualmente se mantém. Trata-se de uma imagem de vulto redondo (82x35cm.), com características formais que apontam para uma datação da primeira metade do séc. XVII, ou mesmo finais do séc. XVI.

O Concílio de Trento, na sua XXV e última sessão, em 1563, legislou um conjunto de normas, sobre as imagens religiosas, que foram reproduzida nas constituições sinodais das várias dioceses e que os visitadores passaram a observar, nas visitas paroquiais dos bispados. Entre as diversas directrizes sobre as imagens, determinava-se que estando muito velhas ou com uma apresentação menos própria ou decente, fossem substituídas por imagens novas de acordo com as normas tridentinas. As imagens retiradas do culto não poderiam ser profanadas, pelo que se manteriam no espaço sagrado, podendo mesmo ser enterradas na igreja, num lugar apartado das covas dos defuntos. No caso da imagem que nos propusemos identificar, ter-se-á optado pela sua arrecadação.

Partindo da hipótese da imagem em questão se enquadrar num desses casos de substituição e de representar uma santa que, no estado em que foi encontrada, não tinha os atributos iconográficos que atestassem a sua identificação, tratamos de verificar quais as imagens de santas existentes na igreja messinense e que notícias históricas havia de altares, imagens, culto ou associações (confrarias, irmandades, mordomias) relativas a santas nesta paróquia. Analisado um conjunto de documentação publicada e de arquivo, quase de imediato constatámos que a hipótese mais provável era tratar-se de uma representação de Santa Justa, cuja imagem (83x45cm.), da primeira metade do séc. XVIII (cf. Francisco Lameira, Inventário Artístico do Algarve, vol. XV, Concelho de Silves, Faro, 2000, p. 214-215) se encontra num nicho lateral do altar de Nossa Senhora do Rosário.

Santa Justa- século XVII

Concorre para esta dedução o facto de termos notícia da existência de uma mordomia de Santa Justa, documentada pelo menos desde 1825 a 1877 e que se terá extinguido no último quartel do séc. XIX, na sequência das leis de desamortização, não sendo já mencionada na conhecida monografia de Ataíde e Oliveira, publicada em 1909.

A mordomia de Santa Justa estava “colocada” (sediada) na ermida de S. Sebastião, como se prova por um documento de 1825, Julho, 9, (Arq. Dist. Faro, Notário José I. B. Machado, nº 54, 2-3-53), amavelmente cedido pelo amigo Aurélio Nuno Cabrita, e que é a escritura de um contrato entre a mordomia de Santa Justa e um alferes de ordenanças e sua mulher que se comprometem a pagar anualmente um juro de 5% sobre a quantia de 76 000 réis que receberam, a título de empréstimo, do pároco, então administrador da mordomia, dando como garantia de hipoteca um terreno que possuíam nas Barradas. Em 1867, havia diversos prédios foreiros à mordomia de Santa Justa (A.N.T.T., Livro 245 de Desamortização e Foros, fl. 237) e, em 1877, num Inventário de Bens Móveis e Imóveis da Paróquia são referidos nove foros, impostos em prédios situados nas Barradas, Cortes, Amorosa, Torre, Monte Boi, Rega e Aldeia Ruiva.Também um Livro de Receita e Despesa da Paróquia, com registos entre 1832 e 1870, contém averbamentos relativos à Mordomia de Santa Justa.

Santa Justa- Século XVIII

Outro facto que contribuiu para a formulação desta proposta de identificação foi a existência de uma imagem, dita nova, de Santa Justa, em Martim Longo, datada de 1792, e que se sabe ter substituído uma imagem velha, referida numa visitação efectuada em 1565 (cf. documentos citados por Francisco Lameira, in A Escultura de Madeira no Concelho de Alcoutim do século XVI ao XIX e Imaginária Retabular Algarvia, Faro, 2022). A “nova” imagem de Santa Justa, na ermida dessa invocação, em Martim Longo, apresenta bastante semelhança (palma do martírio na mão direita, mão esquerda no peito) com a imagem “nova”, na igreja de S. Bartolomeu de Messines.

Santa Justa- Martim Longo (1792)

 

Restam, todavia, algumas questões e dúvidas por esclarecer:

– Quais seriam os atributos iconográficos das imagens “velhas” de S. B. Messines e de Martim Longo?

O culto de Santa Justa, associado ao de Santa Rufina, teve origem em Sevilha, no séc. III, sendo as duas mártires representadas com as palmas e com bilhas ou outras vasilhas de barro, uma vez que, segundo a tradição religiosa, eram oleiras. O culto, muito difundido entre os moçárabes, já existia em Coimbra, em 1098, e em Lisboa, em 1173. Uma imagem do séc. XV, no Museu Machado de Castro, e outra do séc. XVI, na igreja de Santa Justa, no Couço, Coruche, representam a santa mártir com uma bilha. Outras imagens (p. ex. Valongo, Igreja Nova, conc. Barcelos, S. Pedro de Arcos, Museu Machado de Castro) figuram santa Justa com a palma e um livro.

Curiosamente, numa pintura atribuída a Josefa de Óbidos, existente na Columbeira (Bombarral), as duas irmãs oleiras são representadas com livros. Com a mão no peito, assinalam-se além de Messines e de Marim Longo, imagens em Azevedo (Caminha) e Negreiros (Barcelos). Nesta última, de feitura recente, a mão segura uma cruz junto ao peito, tal como na imagem “nova” de Messines.

 

– Quando foi decidido substituir a imagem? Sabe-se que, entre 1630 e 1750 foram efectuadas 23 visitações à igreja de S. Bartolomeu de Messines e que as Constituições Sinodais do Bispado do Algarve foram impressas em 1673.

– Quando se constituiu a Mordomia de Santa Justa e com que finalidades, exactamente? As mordomias eram associações de fiéis para o exercício de certos actos religiosos (culto ao padroeiro, organização de festividade anual, prática de caridade), mas também com actividade económica (aforamentos, empréstimo a juros). Como a Confraria de S. Sebastião que administrava o Celeiro Comum, fundado por Felício Fernandes, em 1763, passava por dificuldades de gestão financeira em finais do séc. XVIII, inícios do XIX, importa averiguar até que ponto existe relação desses problemas com a instituição da mordomia de Santa Justa, “colocada” na ermida de S. Sebastião em 1825, como se referiu acima.

São questões em aberto que uma investigação mais aprofundada, particularmente no Arquivo Histórico da Diocese do Algarve (Livros de Registos das Visitas Episcopais, Livros de Receita e Despesa das Mordomias, Livros de Regimentos das Confrarias) e no Arquivo Paroquial de S.B. Messines, poderá dar resposta.

Entretanto, seja pela raridade, seja pelo inegável valor como património histórico-religioso e artístico, a velha imagem, que supomos ser da mártir Santa Justa, bem merece continuar a ser preservada e apreciada a nível local e regional.

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TAGGED:igrejaJosé Manuel VargasMartim LongoSanta JustaSão Bartolomeu de Messines
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PorJosé Manuel Vargas
Natural de Lisboa, nascido em 1948. Tem ascendência materna e paterna ligada às freguesias de S. Bartolomeu de Messines e S. Marcos da Serra. Professor do Ensino Secundário ( aposentado), é investigador de história local e regional, com várias obras publicadas.
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